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Iara: o chamado do rio

Foto do escritor: Arte Ao Redor
Arte Ao Redor
há 3 horas
6 min de leitura

A gente saiu do mato com os pés trocados do Curupira e voltou para a água. Não a água limpa de fotografia, ajeitada para vender pousada, mas a água grossa dos rios, com raiz afundada, galho boiando, bicho passando por baixo e notícia de gente que nunca voltou. Quem vive perto de rio aprende cedo que a superfície mente com uma calma danada. Por cima, a corrente parece seguir seu serviço. Por baixo, há outra coisa trabalhando.


É ali que estará Iara. Ou dizem que estará, porque a lenda muda conforme a margem, a família, o medo de quem conta. Às vezes ela é uma jovem indígena de beleza difícil de encarar. Às vezes vem como mulher-peixe, cabelos compridos, olhos fundos, canto macio. Em algumas bocas é Mãe-d’água, em outras é Uiara, dona de um lugar onde o rio já não é rio comum. Pode surgir sentada numa pedra, penteando os cabelos, ou apenas como uma voz no fim da tarde, quando o pescador já está cansado e a cabeça começa a aceitar qualquer milagre.


Conta-se que Iara foi, antes de ser encantada, uma mulher de força rara. Em algumas versões, era filha de um pajé ou de um chefe indígena. Sabia caçar, pescar, lutar, remar, sobreviver no mato melhor que muitos homens de sua aldeia. Essa força, que poderia ter sido motivo de orgulho, virou ameaça. Os irmãos, tomados de inveja, resolveram matá-la. Mas Iara reagiu. Defendeu-se como pôde e acabou matando aqueles que vinham contra ela.


O pai, ao descobrir a morte dos filhos, não ouviu defesa. Mandou castigar a filha e lançá-la ao rio. A água recebeu o corpo como quem recebe uma injustiça antiga. Em vez de desaparecer, Iara foi transformada. Os peixes, ou os espíritos das águas, salvaram-na do fim comum. Daquele corpo condenado nasceu uma presença encantada: mulher e água, beleza e perigo, voz e vingança. Desde então, ela passou a viver nos rios, surgindo ao entardecer para cantar.


Quem escuta seu canto sente alguma coisa ceder por dentro. A lenda conta que Iara atrai pescadores, caçadores, viajantes, homens que passam perto da água em hora errada. O canto não parece uma ameaça. Chega bonito, quase educado, entrando pelo ouvido antes que o sujeito se defenda. Ele para. Diz para si mesmo que só vai olhar. Essa mentira pequena, tão humana, costuma abrir a porta para as maiores desgraças. Vê a mulher na beira do rio, ou pensa que vê. A voz continua. Ele dá um passo. Depois outro. Quando percebe, a margem ficou para trás.


Em muitas versões, quem segue Iara desaparece, morre afogado, enlouquece, volta sem juízo, ou nunca mais é visto. Há relatos em que o homem precisa de pajé para se livrar do encanto. Em outros, ele fica preso no fundo do rio, num lugar de beleza estranha, onde a vida humana já não alcança. O fundo, nas lendas, não é só lama e pedra. Pode ser casa. Pode ser prisão. Pode ser o avesso do mundo.


A Iara que chegou até nós não veio de uma única nascente. Seu corpo junta pedaços de muitas águas. Tem algo indígena no nome, na paisagem amazônica, na presença do rio como ser vivo. Tem coisa europeia na mulher que canta e arrasta homens para a morte, velha conhecida de marinheiros, padres e poetas. Há também vizinhanças com outras mulheres das águas, de tradições africanas e afro-brasileiras, porque o Brasil sempre fez isso: misturou rio, mar, medo, culpa e desejo, depois fingiu que tudo nasceu limpo. Não nasceu. Ainda bem.


Por isso, chamar Iara de “sereia brasileira” resolve pouco. É rótulo fácil, desses que cabem em livro escolar e matam metade da história. A sereia vive no mar das navegações antigas; Iara mora no rio, e rio no Brasil não é enfeite. Rio leva peixe, barco, febre, corpo, promessa, lixo, santo, mercúrio, criança tomando banho, mulher lavando roupa, motor de rabeta, silêncio depois da cheia. Rio dá passagem, mas cobra distração. Quem mora perto dele sabe que beleza e perigo podem vir juntos, sem pedir desculpa.


O canto de Iara assusta porque não parece violência. Ninguém é puxado pelos cabelos, ninguém é arrastado por uma mão de osso. O chamado entra macio, e é aí que mora o perigo. A voz dela não obriga. Convida. E o convite encontra alguma fome que já estava no homem: fome de beleza, de fuga, de ser escolhido por algo fora da vida miúda. A canoa, a rede, a casa apertada, o casamento azedo, a pesca ruim, o dia repetido. Tudo isso fica menor quando uma voz no rio promete outra coisa, mesmo que essa promessa tenha cheiro de morte.


Durante muito tempo, a lenda foi contada como aviso contra a mulher bonita. Cuidado com a tentação, cuidado com o cabelo comprido, cuidado com a voz doce. Essa leitura existe, e não dá para fingir que não. Ela revela o medo antigo diante do desejo feminino quando ele não aceita coleiras. A mulher que chama, que escolhe, que atrai, que não está esperando autorização de pai, marido ou padre, vira perigo depressa. Iara carrega esse peso. Mas ela não se esgota nele.


O homem que cai no canto de Iara não é só vítima de uma feiticeira das águas. Ele também é alguém que se acreditava mais firme do que era. Essa é a parte incômoda. A lenda mostra como a razão, tão vaidosa de si, pode se desmanchar diante de uma voz. Basta um timbre, uma promessa, um corpo entrevisto no reflexo, e lá se vai o sujeito, com toda a sua autoridade, pisando fora da margem.


A água vira espelho, mas não daqueles espelhos limpos de banheiro, com luz branca e azulejo. É espelho tremido, barrento, cheio de coisa passando por baixo. Quem se inclina para ver Iara talvez veja também o que escondia de si mesmo: a cobiça, a solidão, a vontade de abandonar a vida comum, o desejo de ser arrancado do próprio tédio. O rio não inventa tudo.


Há nisso uma crueldade, mas também uma precisão. Iara não precisa correr atrás de ninguém. Ela canta. O resto é trabalho de quem escuta. O encanto funciona porque encontra uma brecha, e todo mundo tem alguma. A lenda sabe disso sem precisar explicar.


Hoje, cercados por barulho de todo tipo, a gente acha difícil entender o poder de um canto. Mas continuamos sendo chamados o tempo inteiro. A voz da promessa fácil, a voz da mercadoria, a voz da tela acesa na mão dizendo exatamente o que a pessoa queria ouvir antes de afundar um pouco mais. Nem todo encantamento vem do rio. Alguns vêm com luz azul, boleto parcelado, discurso pronto, rosto bonito falando em confiança. A forma muda; o ouvido continua vulnerável.


Mas é preciso devolver Iara à água, senão a lenda vira metáfora domesticada demais. Ela pertence ao rio. E o Brasil anda tratando seus rios como cano grande, vala de rejeito, obstáculo para obra, lugar onde se joga o que não se quer ver. Depois se espanta quando a água volta suja, quando o peixe some ou a enchente entra pela sala. As lendas das águas talvez tenham sobrevivido também por isso: por guardarem a lembrança de que rio não é coisa morta. Rio escuta e devolve.


Iara, então, não é só o perigo para o homem distraído. É a voz da água quando a água ganha rosto. Bonita, sim. Perigosa também. E não há contradição nisso. A beleza da Iara não serve para tranquilizar ninguém. Serve para tornar o risco mais difícil de recusar. Se fosse feia, talvez fosse mais simples. O problema é que ela canta bem.


Há uma solidão nela que quase sempre passa despercebida. Nas imagens populares, Iara aparece sozinha, penteando os cabelos na beira do rio, cantando para alguém que talvez não volte, ou que voltará quebrado. Essa solidão não diminui sua força. Ela parece pertencer a um mundo onde o convívio humano já não basta. Quem a encontra talvez seja tragado não apenas pela beleza, mas pela promessa de sair da própria vida.


Por isso, moralizar a lenda empobrece tudo. Iara não cabe no aviso de mãe preocupada, nem na fantasia masculina sobre a mulher perigosa, nem na versão escolar da sereia dos rios. Ela é desejo, morte, voz, água com memória. É o canto que mostra o quanto uma pessoa pode se perder sem ser empurrada.


No fim da tarde, o barco encosta devagar. A água bate na madeira com aquele som de bicho respirando. Alguma coisa se move perto da margem. O homem segura o remo e escuta. Podia ir embora… mas fica mais um pouco.

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