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Matinta Pereira: o assobio da noite e a dívida com o invisível

  • Foto do escritor: Arte Ao Redor
    Arte Ao Redor
  • há 12 minutos
  • 5 min de leitura

Depois das águas profundas da Cobra Grande, a série Encantarias do Brasil entra agora na noite. Se a Boiúna falava do rio como força subterrânea, Matinta Pereira chega pelo som: um assobio fino, persistente, capaz de atravessar a casa e lembrar que toda palavra dada ao invisível continua tendo peso. Nesta segunda publicação, seguimos pelas lendas amazônicas como quem escuta aquilo que ainda insiste nas margens da vida comum.


Matinta Pereira: o assobio da noite e a dívida com o invisível


Na Amazônia, quando a noite cai sobre as casas ela entra, também, pelas frestas, muda o peso das árvores, faz um quintal conhecido parecer outro. Um galho estala e já não é só um galho. Uma ave passa, alguma coisa do sossego vai junto. O escuro reorganiza a escuta.


É nesse domínio que aparece Matinta Pereira, ou Matinta Perera, como também é chamada em muitas regiões do Norte. Sua presença costuma ser anunciada por um assobio fino, insistente, atravessando a madrugada. Não é canto de passarinho para enfeitar a mata. É chamado. Incômodo. Uma cobrança sem rosto.


Conta-se que Matinta pode ser uma velha, muitas vezes pobre, solitária, temida pelos arredores. Durante o dia, talvez passe quase invisível, confundida com tantas pessoas que a comunidade empurra para a beira da vida comum. À noite, porém, transforma-se em pássaro agourento, pousa em telhados, muros ou árvores próximas às casas e começa a assobiar.


O som se repete. Entra pela madeira, pela palha, pela telha, pela janela mal fechada. Quem escuta tenta primeiro fingir que não ouviu. Depois espera passar. Depois percebe que não vai passar. Em algum momento, vencido pelo medo ou pelo cansaço, alguém promete alguma coisa para que ela vá embora.


Pode ser fumo. Pode ser café. Em algumas versões, cachaça ou peixe. A promessa costuma sair às pressas, quase sem pensamento, como se a pessoa dissesse qualquer coisa para recuperar o silêncio. A Matinta então se cala e a noite volta a respirar tranquila.


Mas o invisível tem boa memória.


No dia seguinte, uma mulher aparece à porta. Geralmente velha. Às vezes malvestida, de presença desconcertante, com um olhar que parece saber mais do que deveria. Ela vem cobrar o que foi prometido na madrugada. Quem cumpre a palavra encerra o pacto. Quem nega, ri, disfarça ou finge não lembrar, atrai desgraça para dentro de casa. A lenda nem sempre precisa dizer qual. O medo completa o restante.


Essa é uma das forças da Matinta: ela transforma uma frase dita no escuro em obrigação. A promessa feita para afastar o medo retorna pela manhã com corpo humano, batendo à porta, pedindo aquilo que lhe pertence.


Matinta Pereira pertence a uma Amazônia complexa. Não cabe bem na gaveta de “lenda indígena”, nem se deixa explicar apenas pelo folclore escolar. Sua figura parece formada por vozes indígenas, caboclas, ribeirinhas e populares, já transformadas por séculos de recontos. Apesar das variações, o assobio está sempre presente: esse fio sonoro que liga a noite à dívida.


A figura da velha também pede cuidado. A cultura costuma temer mulheres envelhecidas quando elas já não ocupam o lugar dócil que lhes foi reservado. A velha que sabe, que circula, que cobra, que incomoda, facilmente vira bruxa. Em muitas tradições, esse medo revela menos sobre a mulher e mais sobre a comunidade que a cerca. Matinta aparece, então, como rosto de uma velhice marginalizada e poderosa. Alguém que talvez não possua bens, prestígio ou proteção, mas detém outro tipo de força. Sua pobreza não a torna inofensiva e sua solidão não a torna muda.


O assobio é quase nada. Não tem corpo, não apresenta argumento, não pede licença. Ainda assim, altera a casa inteira. Quem já ouviu um som estranho durante a madrugada sabe como o ouvido inventa imagens antes que a razão consiga organizar a cena. A Matinta vive nesse intervalo entre o ruído e a interpretação, entre o medo e a promessa.


Por isso a lenda fala tão bem da falsa segurança doméstica. A casa, à noite, deveria proteger. Suas paredes separam o conhecido do mundo de fora; sua porta define o limite entre intimidade e ameaça. Matinta desfaz essa confiança sem arrombar nada. Ela pousa por perto e assobia. Não precisa entrar porque já entrou.


A promessa feita a ela revela outro ponto delicado. Quando o medo aperta, a palavra sai antes da ética. Promete-se qualquer coisa para que o incômodo cesse. A lenda, porém, não aceita a palavra como simples descarga nervosa. Palavra dada vira laço. Aquilo que se diz ao invisível continua valendo depois que o dia clareia.


Num Brasil acostumado a tratar compromissos como enfeites de ocasião, a Matinta preserva uma ética antiga. Diante dela, pouco importa a beleza do discurso se a palavra empenhada não for cumprida. A oferenda pode ser modesta, um pouco de café, um peixe, um maço de fumo ou uma garrafa de cachaça. O essencial está no gesto de reconhecer a promessa feita e aceitar a responsabilidade que ela produz.


Cada comunidade sabe o que prometeu e não cumpriu. Às vezes, essa dívida toma a forma de uma mulher velha à porta, pedindo pouco, mas pedindo com a autoridade de quem ouviu a palavra dada no escuro. Toda casa conhece algum silêncio comprado às pressas. Toda família guarda o que preferiu chamar de esquecimento. Matinta retorna justamente por isso.


A história assusta, mas não vive apenas do susto. Por trás do assobio há uma figura humana: velha, pobre em muitas versões, próxima demais daquilo que a comunidade prefere manter à distância. Ela não é só ave noturna ou bruxa, mas mensageira de uma ordem em que o invisível participa da vida cotidiana. Quem vive num mundo assim sabe que a palavra circula entre planos. Sabe também que uma casa não se protege apenas com portas fechadas.


A Amazônia de hoje, com suas cidades crescendo sobre memórias ribeirinhas e seus modos tradicionais de vida pressionados por forças que vêm de longe, ainda guarda essas figuras porque elas dizem o que nem sempre cabe em linguagem oficial. A Matinta fala de responsabilidade. Fala da velhice que a sociedade despreza, da pobreza que retorna à porta, da noite que não se deixa vencer pela lâmpada elétrica. Fala, sobretudo, da escuta.


Quem não escuta durante o dia talvez seja obrigado a escutar à noite.


O assobio da Matinta atravessa a escuridão como uma marca impossível de ignorar. Em vez de oferecer explicações, ele apenas retorna, repetindo-se até que sua presença seja reconhecida. Cada tempo encontra nela um reflexo de suas próprias promessas apressadas, das dívidas que prefere esquecer e da inquietação provocada por tudo aquilo que permanece à espera de ser enfrentado.


A manhã chega, mas não absolve ninguém. A casa abre as janelas, o café sobe no fogo, os moradores tentam convencer a si mesmos de que a madrugada foi apenas sonho. Mais tarde, alguém chama no portão. Uma mulher espera. Veio buscar o que lhe prometeram.


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