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Curupira: o rastro que mente

  • Foto do escritor: Arte Ao Redor
    Arte Ao Redor
  • há 4 horas
  • 4 min de leitura

A gente já falou da Cobra Grande, já ouviu o assobio da Matinta. Agora, a série Encantarias do Brasil entra no mato. E não pense naquela mata de cartão-postal, o verdinho na janela do avião para aliviar a culpa urbana. Falo da mata que encara. A mata que tem dono, que observa, que responde. É nesse território que o Curupira atua, onde o caminho nunca é só caminho. Onde o rastro mente. Ou, pior, diz uma verdade que o invasor desaprendeu a perceber.


Todo mundo conhece a base: menino, cabelo de brasa, dente afiado, pé virado para trás. Mas a boca do povo muda a história conforme o sotaque. Às vezes ele é quase bicho, às vezes uma sombra correndo na brenha, às vezes parece mais velho do que menino. O que não muda é o pé. O pé errado. Quem tenta seguir o rastro dele se dá mal. Acha que ele foi para um lado, mas talvez já esteja bem atrás.


O Curupira não tem paciência para caçador de enfeite, para lenhador que derruba por ganância, para gente que entra na floresta achando que pisa num terreno baldio. Ele bagunça a cabeça. Começa com um assobio que vem de todo lado. Depois, o rastro some. A árvore que estava atrás reaparece na frente. O sol não bate mais onde deveria. O castigo do Curupira nem sempre é a morte. Às vezes é pior para quem se acha dono do mundo: é perder a certeza. Descobrir, com o suor frio na nuca, que não sabe de nada.


Esquece essa ideia de que ele protege a natureza dando sermão. Ele protege desarrumando a arrogância de quem confunde mapa com território. Os pés virados para trás não são um detalhe para enfeitar um livro infantil. São a própria floresta zombando da nossa lógica. O rastro serve para guiar, dizem. Para ele, serve também como isca. A mata embaralha as pistas, esconde os bichos e devolve ao invasor uma parte do veneno que ele trouxe.


O caboclo antigo sabe: caçar para a panela não é o mesmo que matar para encher parede de troféus. Tirar madeira para levantar casa não é tratar a floresta como depósito sem porteira. O Curupira guarda esse limite. Não é fiscal de repartição, não anda com prancheta anotando infração ambiental. Sua lei é mais antiga, mais rude. A mata deixa tirar alguma coisa dela, desde que haja medida, respeito, alguma forma de licença. O bicho pega quando a reciprocidade acaba.


O europeu que anotou isso lá no século XVI logo tratou de chamar o guardião de demônio. Faz sentido: para quem quer tomar a terra, o protetor dela costuma parecer o capeta. Mas o Curupira escapou da catequese. Sobreviveu à escola, ao folclore domesticado, ao desenho animado que tenta transformar assombro em mascote. Mesmo num livro de criança, ele sobra. O cabelo em chama, o assobio que gelou a espinha de tantos avós, os pés que não obedecem à direção esperada. Ele não cabe bem na moldura.


Quem mora perto da floresta sabe que o mato tem hora de fechar. Tem silêncio que pesa. Tem bicho que some sem aviso. O Curupira é o rosto dessa floresta que não aceita virar paisagem. Quando o mato se defende, a gente chama de assombração.


Aí a gente olha para o Brasil de hoje. O garimpo cuspindo mercúrio, a motosserra uivando, a terra indígena empurrada para o canto como se fosse um obstáculo administrativo. O que acontece com um país quando a floresta já não consegue esconder seus bichos dos agressores? A maldade ficou sofisticada. Satélite, drone, grileiro com papelada falsa. A floresta não assusta mais o trator. Mas o mito continua doendo, lembrando o tamanho da nossa cegueira. Quando o Curupira deixa de dar medo, talvez seja porque a gente já perdeu o pouco de juízo que tinha.


O Curupira é um menino feroz que faz do próprio corpo uma armadilha contra a nossa mania de posse. Ele não é dono do mato. Ele é do mato. Essa diferença parece pequena, mas carrega um mundo. Reduzir sua figura a “defensor da natureza” limpa demais o chão da lenda. Ele é o nervo exposto de uma floresta que ainda tem vontade própria. Um lugar onde cortar sem respeito não é só crime ambiental; é uma quebra de acordo com aquilo que não aparece no contrato.


As lendas ficam porque a gente ainda não resolveu o problema que elas apontam. O Brasil continua andando para frente com os pés virados para trás, achando que vai chegar a algum lugar.


O caçador olha para o chão, vê o rastro, sorri e pensa que descobriu o caminho. Só quando o mato fecha e a luz some atrás das folhas é que ele entende. Aquelas pegadas nunca foram um convite. A floresta só estava mostrando para onde ele ia.

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