O Calhambola, de Trajano Galvão de Carvalho
- Arte Ao Redor

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Antes de Castro Alves se tornar a grande referência da poesia abolicionista no Brasil, o maranhense Trajano Galvão de Carvalho já dava voz, em seus versos, à figura do negro escravizado como sujeito de força, orgulho e resistência.
Em “O Calhambola”, a escravidão não aparece como destino natural, mas como violência imposta: “Nasci livre, fizeram-me escravo”. A partir daí, o poema transforma o corpo negro — pulso, pele, sangue, braço e pés — em imagem de insurgência. Não há submissão resignada, mas movimento, fuga, enfrentamento. O eu lírico afirma sua negritude sem pedir licença, recusando as algemas materiais e simbólicas que tentavam moldá-lo.
A linguagem romântica, marcada por imagens intensas e grandiosas, faz da revolta uma força quase natural: sangue em tormenta, canhões, tufões. É poesia de combate, mas também de afirmação humana. Um breve canto de liberdade escrito num tempo em que a liberdade ainda precisava ser arrancada à força da história.
O Calhambola
Trajano Galvão de Carvalho
Aqui, só, no silêncio das selvas,
Quem me pode o descanso vedar?
Durmo à noite num leito de relvas,
Só a aurora me vem despertar.
Diante da onça, que afoita anda à caça,
Mais afoito, meus passos não torço,
Nem é duvidosa uma luta entre nós.
O bodoque às vezes supre a bala,
Toda a mata medrosa se cala,
Quando rujo medonho na voz.
Tenho fome?... A palmeira se verga,
Seus coquinhos se espalham no chão;
E, debaixo, a cutia se enxerga
Sentada, comendo na mão.
Se as entranhas se abrasam sedentas,
Tu, ó Terra, mil fontes rebentas,
Como as fontes do leite à mulher!
Num terreno tão farto e maduro,
Quem lá pode cuidar no futuro,
Quem de fome, ou de sede, morrer?...
Nasci livre, fizeram-me escravo:
Fui escravo, mas livre me fiz.
Negro, sim: mas o pulso do bravo
Não se amolda às algemas servis!
Negra a pele, mas o sangue no peito,
Como o mar em tormentas desfeito,
Ferve, estua, referve em cachões!
Negro, sim: mas é forte o meu braço,
Negros pés, mas que vencem o espaço,
Assolando, quais negros tufões!
Negro o corpo, afinou-se minha alma
No sofrer, como ao fogo o tambor:
Mas, altiva, reergue-se a palma
Com o peso, assim eu com a dor!...
Como a língua recolhe, pungindo,
O tamanduá, de formigas fervendo,
Tal de açoites cingiram-me os rins:
E eu bramia, qual onça enraivada,
Que esbraveja, que brame acuada;
Em um circo de leves mastins.
Eu bramia, porém não chorava,
Porque a onça bramiu, não chorou;
Membro a membro meu corpo quebrava,
A vontade, ninguém me quebrou!...
Como reina mudez na tapera:
No meu peito a vontade é que impera;
Aqui dentro, só ela dá leis.
Se cometo uma empresa ufana,
Com o bodoque, ou com a flecha talhante,
A vontade me brada: — podeis!
Oh! que sim!... estes ombros possantes,
Digno assento da fronte de um rei,
Não os hão de sulcar vis tagantes
Nunca mais... nunca mais, — que o jurei!
O homem forte, que brada aos verdugos:
“Guerra, guerra, ou quebrai-me estes jugos”,
Tem um eco, tem voz lá no céu.
O que a Morte não teme — eis o forte;
E mal basta temer-se da Morte
Quem na vida tormenta correu.
Outros há, cujo peito embebeu
O temor, como ao peixe o tingui:
Oh! meu Deus!... oh! poder que eu pudera
Acendê-los num raio de mil!...
Este sangue, em que ferve o insulto
De um covarde nas veias impune,
Não correra, ou vazara-o no chão!...
Mas eu só... Maldição sobre a escrava
Que o filhinho para o jugo aleitava;
Sobre ti, minha mãe, maldição!
Vivo só... pouco fundem meus brios
Contra o número e a força brutal;
Ínvios matos, ocultos desvios
Não me oferecem guarida cabal!
De que vale ao pau-d’arco a rijeza
De seu tronco, que o ferro despreza,
Quando o céu vibra raios a mil?...
Oh! se cai... toda a mata retumba!
Pouco importa que o bravo sucumba
Quando a morte é briosa e viril!...
Olinda — 1854.
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