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O Calhambola, de Trajano Galvão de Carvalho

  • Foto do escritor: Arte Ao Redor
    Arte Ao Redor
  • há 12 minutos
  • 3 min de leitura

Antes de Castro Alves se tornar a grande referência da poesia abolicionista no Brasil, o maranhense Trajano Galvão de Carvalho já dava voz, em seus versos, à figura do negro escravizado como sujeito de força, orgulho e resistência.


Em “O Calhambola”, a escravidão não aparece como destino natural, mas como violência imposta: “Nasci livre, fizeram-me escravo”. A partir daí, o poema transforma o corpo negro — pulso, pele, sangue, braço e pés — em imagem de insurgência. Não há submissão resignada, mas movimento, fuga, enfrentamento. O eu lírico afirma sua negritude sem pedir licença, recusando as algemas materiais e simbólicas que tentavam moldá-lo.


A linguagem romântica, marcada por imagens intensas e grandiosas, faz da revolta uma força quase natural: sangue em tormenta, canhões, tufões. É poesia de combate, mas também de afirmação humana. Um breve canto de liberdade escrito num tempo em que a liberdade ainda precisava ser arrancada à força da história.


O Calhambola

Trajano Galvão de Carvalho


Aqui, só, no silêncio das selvas,

Quem me pode o descanso vedar?

Durmo à noite num leito de relvas,

Só a aurora me vem despertar.

Diante da onça, que afoita anda à caça,

Mais afoito, meus passos não torço,

Nem é duvidosa uma luta entre nós.

O bodoque às vezes supre a bala,

Toda a mata medrosa se cala,

Quando rujo medonho na voz.


Tenho fome?... A palmeira se verga,

Seus coquinhos se espalham no chão;

E, debaixo, a cutia se enxerga

Sentada, comendo na mão.

Se as entranhas se abrasam sedentas,

Tu, ó Terra, mil fontes rebentas,

Como as fontes do leite à mulher!

Num terreno tão farto e maduro,

Quem lá pode cuidar no futuro,

Quem de fome, ou de sede, morrer?...


Nasci livre, fizeram-me escravo:

Fui escravo, mas livre me fiz.

Negro, sim: mas o pulso do bravo

Não se amolda às algemas servis!

Negra a pele, mas o sangue no peito,

Como o mar em tormentas desfeito,

Ferve, estua, referve em cachões!

Negro, sim: mas é forte o meu braço,

Negros pés, mas que vencem o espaço,

Assolando, quais negros tufões!


Negro o corpo, afinou-se minha alma

No sofrer, como ao fogo o tambor:

Mas, altiva, reergue-se a palma

Com o peso, assim eu com a dor!...

Como a língua recolhe, pungindo,

O tamanduá, de formigas fervendo,

Tal de açoites cingiram-me os rins:

E eu bramia, qual onça enraivada,

Que esbraveja, que brame acuada;

Em um circo de leves mastins.


Eu bramia, porém não chorava,

Porque a onça bramiu, não chorou;

Membro a membro meu corpo quebrava,

A vontade, ninguém me quebrou!...

Como reina mudez na tapera:

No meu peito a vontade é que impera;

Aqui dentro, só ela dá leis.

Se cometo uma empresa ufana,

Com o bodoque, ou com a flecha talhante,

A vontade me brada: — podeis!


Oh! que sim!... estes ombros possantes,

Digno assento da fronte de um rei,

Não os hão de sulcar vis tagantes

Nunca mais... nunca mais, — que o jurei!

O homem forte, que brada aos verdugos:

“Guerra, guerra, ou quebrai-me estes jugos”,

Tem um eco, tem voz lá no céu.

O que a Morte não teme — eis o forte;

E mal basta temer-se da Morte

Quem na vida tormenta correu.


Outros há, cujo peito embebeu

O temor, como ao peixe o tingui:

Oh! meu Deus!... oh! poder que eu pudera

Acendê-los num raio de mil!...

Este sangue, em que ferve o insulto

De um covarde nas veias impune,

Não correra, ou vazara-o no chão!...

Mas eu só... Maldição sobre a escrava

Que o filhinho para o jugo aleitava;

Sobre ti, minha mãe, maldição!


Vivo só... pouco fundem meus brios

Contra o número e a força brutal;

Ínvios matos, ocultos desvios

Não me oferecem guarida cabal!

De que vale ao pau-d’arco a rijeza

De seu tronco, que o ferro despreza,

Quando o céu vibra raios a mil?...

Oh! se cai... toda a mata retumba!

Pouco importa que o bravo sucumba

Quando a morte é briosa e viril!...


Olinda — 1854.

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