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O homem

  • Foto do escritor: Arte Ao Redor
    Arte Ao Redor
  • 6 de mai.
  • 2 min de leitura

O homem

(Jorge Ricardo)


O homem presenteia o homem com uma caneta. O homem guarda a caneta na gaveta, uma gaveta vazia. O homem sorri. Um dia depois de muitos dias o homem empresta a caneta para uma mulher escrever seu nome e seus números. A caneta está ressecada, não funciona mais e o homem não consegue registrar as coisas da mulher. A mulher se vai, ressentida por não ter escrito. O homem se entristece, não soube tratar bem nem a caneta nem a mulher — reflete.


O homem presenteia o homem com um caderno. É um caderno italiano! — adiciona enfático. As páginas, brancas, as folhas, delicadas. O homem agradece e sorri. Mas a caneta ainda descansa, ressecada e abandonada, dentro da gaveta. O homem fica com vergonha de contar ao homem sobre a caneta, pareceria descuido. Aparece outra mulher, pede uma caneta, um papel. Mas a caneta não funciona, ainda resta ressecada. Ela diz que não tem problema, argumenta que sabe resolver canetas ressecadas. O homem abre a gaveta, entrega a caneta e o caderno italiano para a mulher. Ela fricciona a caneta junto ao peito, atrita nas coxas e depois, escreve no caderno italiano. Ela sorri, ele sorri, parece mágica. Agora na gaveta, a caneta, fluida, o caderno italiano com algumas páginas inscritas e o perfume da mulher permeando tudo. Ela se vai e o homem a observa longamente indo e indo. Algo dentro dele amanhece.


O homem presenteia o homem com uma cartilha de números e letras. Números. Letras. Ele sorri, ele compreende. Estuda a cartilha, aprende primeiro os números, os números tão frios e distantes. Mas são os números que lhe interessam. Alguns dias depois vai até um telefone público e pressiona os números escritos pela mulher no caderno italiano. O coração pulsa ao ouvir uma voz emergindo do aparelho. A voz. Olá, Alô e Oi se misturam a outras palavras: hora e lugar. Pensamentos. Sensações. Ele responde, ela responde. Eles marcam um encontro.


O homem presenteia o homem com duas notas de dinheiro, notas grandes, gordas. O homem as guarda na gaveta junto a tudo. O homem sai à noite com as notas, o caderno, a caneta, o perfume e, sim, o coração. Nunca mais volta.


Jorge Ricardo escreve ensaios como quem sustenta um estado de atenção. Textos do autor já integraram a coletânea Diamantes no Escuro: Melhores textos da Oficina de Vivian Schlesinger (2024). 


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