Luiz Gama e a Abolição Inacabada
- Arte Ao Redor

- há 1 dia
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No Brasil, o 13 de maio costuma surgir envolto por uma narrativa conciliatória. A assinatura da Lei Áurea aparece, muitas vezes, como um gesto magnânimo da monarquia, concentrado na figura da princesa Isabel e numa ideia abstrata de “fim da escravidão”. Essa versão, ainda bastante presente na memória oficial do país, tende a suavizar o processo histórico que tornou a abolição inevitável. Antes da lei de 1888, houve décadas de tensão social, fugas, revoltas, organização negra, imprensa militante, atuação jurídica e desgaste político de uma ordem que já não conseguia sustentar, sem fissuras, sua própria legitimidade.
Entre os nomes que participaram desse processo, Luiz Gama ocupa um lugar singular. Sua trajetória não permite que a escravidão seja tratada apenas como tema de debate público ou como questão humanitária observada à distância. Gama nasceu livre, foi vendido ilegalmente como escravizado ainda criança e, depois de conquistar a própria liberdade, fez da palavra — no direito, na imprensa e na literatura — uma forma concreta de combate.
Luiz Gonzaga Pinto da Gama nasceu em Salvador, em 1830. Era filho de Luísa Mahin, mulher negra livre associada à memória das insurreições negras da Bahia, e de um fidalgo português. Aos dez anos, foi vendido pelo próprio pai para quitar dívidas. O episódio é biograficamente devastador, mas também revela algo mais amplo: numa sociedade escravista, mesmo a liberdade legal de uma criança negra podia ser desfeita pela força do interesse econômico e pela naturalização da violência racial.
Aos dezessete anos, já em São Paulo, aprendeu a ler. A partir daí, construiu uma formação autodidata num ambiente em que o conhecimento formal, os tribunais e a vida pública pertenciam quase sempre aos homens brancos das elites. Sem diploma universitário, atuou como rábula, isto é, como prático do direito. Essa condição, longe de diminuir sua importância, evidencia a força de sua inteligência jurídica. Gama conhecia as contradições da legislação imperial e sabia utilizá-las contra o próprio sistema que sustentava a escravidão.
Sua atuação nos tribunais foi decisiva para a libertação de centenas de pessoas escravizadas. Um dos pontos centrais de sua estratégia estava na lei de 1831, que proibia o tráfico transatlântico de africanos para o Brasil. Como muitos africanos haviam sido trazidos ilegalmente depois dessa data, Gama argumentava que sua escravização também era ilegal. A lei, durante muito tempo tratada como letra morta, tornava-se em suas mãos um instrumento de confronto. Não havia ingenuidade nisso: ele sabia que o direito não era neutro, mas também sabia que podia ser transformado em campo de disputa.
A carta autobiográfica enviada a Lúcio de Mendonça, em 1880, permanece como um dos documentos mais importantes da intelectualidade negra brasileira do século XIX. Nela, Luiz Gama narra a própria vida com uma sobriedade que impressiona. Ao falar da infância, escreve:
“Fui vendido como escravo por meu próprio pai.”
A frase não precisa de ornamento. Sua violência está no fato narrado e no mundo que o tornou possível. Gama não apenas registra uma tragédia familiar, mas também expõe uma ordem social em que pessoas negras podiam ser deslocadas entre a liberdade e o cativeiro conforme a conveniência de terceiros. Ao narrar sua história em primeira pessoa, ele rompe também com o lugar que o Brasil escravista reservava aos negros: o de objeto do discurso alheio, nunca o de sujeito da própria memória.
Essa tomada da palavra atravessa igualmente sua produção literária. Em Primeiras Trovas Burlescas de Getulino, publicado em 1859, Luiz Gama faz da sátira uma ferramenta de crítica social. Sua poesia ridiculariza a falsa erudição, o racismo das elites, as hierarquias de cor e os mecanismos de prestígio que organizavam a sociedade imperial. O riso, em sua obra, raramente é leve. Ele fere porque revela.
Há, nesse ponto, uma diferença importante em relação a boa parte da literatura brasileira do período. Enquanto muitos autores românticos representavam personagens negros a partir da piedade, da idealização ou da subalternidade, Gama escrevia a partir de uma consciência racial explícita. Eduardo de Assis Duarte observa que sua obra inaugura uma voz autoral negra na literatura brasileira, deslocando o negro do lugar de personagem observado para o de sujeito que interpreta e critica o país.
Essa dimensão intelectual de Luiz Gama é fundamental. Reduzi-lo apenas ao heroísmo abolicionista seria empobrecer sua atuação. Ele foi poeta, jornalista, polemista, intérprete agudo das contradições brasileiras. Ao atacar a escravidão, atingia também o liberalismo seletivo do Império, capaz de falar em civilização enquanto mantinha seres humanos como propriedade. Sua crítica alcançava a hipocrisia de uma sociedade que produzia leis, mas aceitava ignorá-las sempre que a liberdade negra ameaçava interesses econômicos.
Luiz Gama morreu em 1882, seis anos antes da assinatura da Lei Áurea. Não viu o fim jurídico da escravidão no Brasil. Seu funeral, em São Paulo, reuniu milhares de pessoas, entre ex-escravizados, trabalhadores, estudantes, jornalistas e militantes. A comoção pública não foi apenas homenagem pessoal, mas o reconhecimento de uma vida que havia se confundido com a luta concreta pela liberdade.
Ainda assim, durante muito tempo, sua presença foi diminuída na memória nacional. O país preferiu contar a abolição como cena de palácio, como gesto superior de uma monarquia tardia, evitando reconhecer o peso das ações negras, populares e jurídicas que corroeram a escravidão por dentro. Recolocar Luiz Gama no centro dessa história significa corrigir uma distorção importante configurada pela ideia de que a liberdade chegou apenas pela assinatura de uma lei. Na verdade, ela foi preparada, exigida e conquistada por muitos que não aparecem nas imagens oficiais.
Revisitar Luiz Gama às vésperas do 13 de maio é também reconhecer que a abolição brasileira permaneceu incompleta em seus desdobramentos sociais. O fim legal da escravidão não veio acompanhado de reparação, distribuição de terras, inclusão econômica ou reconhecimento pleno da cidadania negra. As marcas desse abandono seguem visíveis na desigualdade racial, na violência de Estado, na precarização do trabalho e no apagamento de tantas contribuições negras para a formação intelectual e cultural do país.
A atualidade de Luiz Gama impede que o Brasil adormeça sobre uma versão pacificada de si mesmo. Ao transformar a palavra em instrumento de liberdade, ele mostrou que a luta contra a escravidão não se travava apenas nos campos, nas ruas ou nos tribunais, mas também na memória. E a memória, quando recusa o conforto das versões oficiais, continua sendo uma forma de justiça.
“Em nós, até a cor é um defeito. Um imperdoável mal de nascença, o estigma de um crime. Mas nossos críticos se esquecem que essa cor é a origem da riqueza de milhares de ladrões que nos insultam; que essa cor convencional da escravidão, tão semelhante à da terra, abriga sob sua superfície escura, vulcões, onde arde o fogo sagrado da liberdade”. (Luiz Gama, 1859)
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