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Perguntas de um trabalhador que lê, de Bertolt Brech

  • Foto do escritor: Arte Ao Redor
    Arte Ao Redor
  • há 5 horas
  • 3 min de leitura

No Dia do Trabalhador, o poema “Perguntas de um trabalhador que lê”, de Bertolt Brecht, ainda provoca um tipo raro de deslocamento: ao invés de aceitar a História como ela costuma ser contada, insiste em interrogá-la. As perguntas, diretas e quase despretensiosas, acabam revelando aquilo que o discurso oficial prefere deixar de lado, sobretudo o trabalho invisível que sustenta cada feito celebrado.


Ao mudar o foco dos heróis para aqueles que tornaram suas conquistas possíveis, o poema desmonta a ideia de grandeza isolada e expõe a matéria concreta da História, feita por mãos anônimas que constroem, cozinham, carregam, mantêm. Nesse movimento, também nos obriga a reconsiderar o modo como admiramos o poder, lembrando que toda glória tem custos, bastidores e ausências.


Relido hoje, o texto segue menos como homenagem e mais como um chamado à atenção: quem fez, quem sustentou, quem ficou de fora. Talvez seja aí que reside sua força duradoura, nessa recusa em deixar que o trabalho desapareça junto com os nomes de quem o realizou.


Perguntas de um trabalhador que lê

(Bertolt Brecht)


Quem construiu Tebas, a das sete portas?

Nos livros constam os nomes dos reis.

Foram os reis que arrastaram os blocos de pedra?

E a Babilônia, tantas vezes destruída,

quem a reconstruiu tantas vezes? Em que casas

da Lima resplandecente de ouro moravam os pedreiros?

Para onde foram, na noite em que a Muralha da China ficou pronta,

os construtores? A grande Roma

está cheia de arcos do triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem

triunfaram os Césares? Bizâncio, tão cantada,

tinha apenas palácios para seus habitantes? Mesmo na lendária Atlântida,

na noite em que o mar a engoliu,

os que se afogavam gritavam por seus escravos.

O jovem Alexandre conquistou a Índia.

Ele sozinho?

César venceu os gauleses.

Não levava consigo ao menos um cozinheiro?

Filipe da Espanha chorou quando sua frota

afundou. Ninguém mais chorou?

Frederico II venceu na Guerra dos Sete Anos. Quem

venceu além dele?

Cada página, uma vitória.

Quem cozinhou o banquete da vitória?

A cada dez anos, um grande homem.

Quem pagou as despesas?

Tantos relatos.

Tantas perguntas.


Original:


Fragen eines lesenden Arbeiters

Bertolt Brecht

Wer baute das siebentorige Theben?

In den Büchern stehen die Namen von Königen.

Haben die Könige die Felsbrocken herbeigeschleppt?

Und das mehrmals zerstörte Babylon

Wer baute es so viele Male auf? In welchen Häusern

Des goldstrahlenden Lima wohnten die Bauleute?

Wohin gingen an dem Abend, wo die Chinesische Mauer fertig war

Die Maurer? Das große Rom

Ist voll von Triumphbögen. Wer errichtete sie? Über wen

Triumphierten die Cäsaren? Hatte das vielbesungene Byzanz

Nur Paläste für seine Bewohner? Selbst in dem sagenhaften Atlantis

Brüllten in der Nacht, wo das Meer es verschlang

Die Ersaufenden nach ihren Sklaven.

Der junge Alexander eroberte Indien.

Er allein?

Cäsar schlug die Gallier.

Hatte er nicht wenigstens einen Koch bei sich?

Philipp von Spanien weinte, als seine Flotte

Untergegangen war. Weinte sonst niemand?

Friedrich der Zweite siegte im Siebenjährigen Krieg. Wer

Siegte außer ihm?

Jede Seite ein Sieg.

Wer kochte den Siegesschmaus?

Alle zehn Jahre ein großer Mann.

Wer bezahlte die Spesen?

So viele Berichte.

So viele Fragen.

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1 comentário


FRANCISCO DE ASSIS SILVA
FRANCISCO DE ASSIS SILVA
há 3 horas

Vou começar a ler o livro. Adoro ler!


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