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Ausências

  • Foto do escritor: Arte Ao Redor
    Arte Ao Redor
  • há 2 dias
  • 2 min de leitura

Ausências

(Jorge Ricardo)


A cada manhã florescem mais ausências no meu quintal. A princípio brotam pequenas, quase invisíveis, porém no depois crescem vigorosas, assemelham-se ao mato, mas não são mato. Nascem tímidas, muitas geradas de silêncios breves, mas com o tempo se constroem com raízes profundas fincadas nos vãos chãos da minha memória. Nunca acompanham os ponteiros que guardo na parede, possuem um outro mecanismo, espalham-se para outroras diversos.


Nestes novos amanhãs, meu quintal parece se metamorfosear num jardim, um jardim possuidor de olhos tristes de um cão abandonado. Cultivo essas ausências com a tranquilidade de um artificie que não espera frutos, apenas a beleza triste do que já não é. E, enquanto as cultivo, percebo nelas a melancolia pela falta do vento, o farto generoso, o trazedor de outras vozes. Talvez o vento prefira mesmo as presenças. E então, quando a esperança do vento desvanece por completo restam as lágrimas como sementes, suas humildades adotam a terra escura adubando-as ainda mais.


Aninhado num outubro moroso, entravado entre dias e memórias, o tempo parece pedir socorro, e eu, sem resposta, apelo até aos impacientes. São eles que talvez possam entender o valor das minhas ausências. Nas terças-feiras, não sei o porquê, elas parecem devorar esse mesmo tempo com mais intensidade, crescem tanto nesses dias, que percebo até nos meus ponteiros essa ansiedade.


Às vezes, nessa mistura de quintal e jardim ouço o amar, seus surssurros cúmplices e suas tantas vagas. Chega, quando chega, sempre muito cedo, acompanhado de um murmúrio inconstante, em ondas que batem e levam consigo fragmentos que já não recordo. É assim que as memórias também me abandonam. Algumas partem zangadas, incomodadas por algo que não entendi — batem portas com ruídos definitivos e desaparecem. Outras são mais brandas, partem devagar, chorosas, como quem pede desculpa por não mais suportar ficar. Já nem sei ao certo do que falo. Talvez seja sempre assim com quem cultiva ausências: perde-se também o assunto, a certeza, a coerência. O que resta é esse movimento repetido de apanhar do chão as coisas que não ficaram, reconhecer-se naquilo que falta, encontrar a tal beleza justamente no que não se vê mais.


Jorge Ricardo escreve ensaios como quem sustenta um estado de atenção. Textos do autor já integraram a coletânea Diamantes no Escuro: Melhores textos da Oficina de Vivian Schlesinger (2024). 


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1 comentário


Márcia Cristina Leite Rosa
Márcia Cristina Leite Rosa
há 5 horas

Texto muito sensível. Parabéns!

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