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A Palavra em Queda

  • Foto do escritor: Arte Ao Redor
    Arte Ao Redor
  • há 4 horas
  • 2 min de leitura

A Palavra em Queda

(Jorge Ricardo)


A palavra, inteira, fugiu no através da minha boca em desespero. Nunca pronunciada, agora resta expulsa, nua e frágil. Fugiu como quem foge de um casulo, não suportando mais habitar o corpo que a calava. Despencou até o chão com violência, com a gravidade tão pesada de quem não deseja voltar. E, num átimo, ao tocar o solo, tornou-se quebra.


Fugindo assim deixou de ser palavra para ser apenas fratura.


No ali, fragmentos de um outrora grito, restos que ainda carregam dor . Mas nesses estilhaços, de algum modo, ainda brilham sementes de vaga-lumes. Outras palavras nascem, alquebradas, desferidas, porém ainda palavras, ainda possíveis. E já nascem num gritando, como se o mundo precisasse ouvir tudo o que o silêncio abafou por tanto tempo.


E então me pergunto num longínquo solilóquio: essa palavra, caída, ferida, exposta... foi morte? Ou ousou o nascimento?


Talvez, toda palavra dita com verdade, precise morrer para que outras amanheçam. Porque há palavras que são como carne: sangram, apodrecem. E há palavras que são como túneis: entregam luz, mesmo que antes nos obriguem a atravessar trevas.


E o que restou da boca? Um eco ou ainda apenas um buraco, vão. Um tempo suspenso entre o som e o silêncio. Porque quando a palavra se vai, o que fica é o abismo: o rasgo entre o que foi dito e o que jamais poderá ser desdito.


E nesse abismo, talvez more a essência da linguagem — não o que comunica, mas o que rompe. Não o que explica, mas o que revela. A palavra que cai e se parte, que tenta fugir do opressor dentro de nós, não é falha. É via em forma de ruína. E é ali, entre os cacos e os gritos, que a linguagem volta a ser corpo. E, no então da noite turva, dançam vaga-lumes.



Jorge Ricardo escreve ensaios como quem sustenta um estado de atenção. Textos do autor já integraram a coletânea Diamantes no Escuro: Melhores textos da Oficina de Vivian Schlesinger (2024). 


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