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Pretérito Imperfeito

  • Foto do escritor: Arte Ao Redor
    Arte Ao Redor
  • há 3 horas
  • 2 min de leitura

Pretérito Imperfeito

(Jorge Ricardo)


Madrugada sem dia. A casa pesava: os bichos, a criança, a velha. Mãos rudes. Cada tempo, um rito. O que não era ordem ficava pelo caminho. O rosto sujo, os dentes esquecidos. Não cabiam nela.


Pouco mexidos, muito sal, os ovos não podiam endurecer - nunca. A velha queria do jeito certo, e o jeito certo, era o jeito dela. O café, duas colheres rasas, nem mais, nem menos. O pó, cheiro forte, sabor amargo. O pão só prestava para a criança se fosse queimado e tivesse o miolo encharcado de manteiga, e sim, as bordas, secas. Tudo era um trejeito. Não errava porque não podia errar.


Por vezes o café minguava, o pão endurecia, os ovos desandavam. Uma qualquer coisa sempre faltava, algo sempre fora de lugar. O tal imperfeito. A mão arriscava o ajuste, tentava dar jeito no que não tinha jeito. O galo cantava às vezes no antes da hora, outras vezes no depois; ou para anunciar o amanhecer ou a própria morte.


Só depois, quando tudo estava feito, quando nas mãos sobrava apenas ausência, podia sentar no alquebre do canto. Tempo miúdo, mas nela pousava, como tudo. A cadeira rangia sob o peso do corpo gasto. Do copo encardido, o café quente fumegava, suando o vidro fosco. O sol subia atrás da montanha, lento, inevitável. O primeiro rasgo de sol acendia nas telhas de barro abandonadas e o segundo tangia nos sulcos da pele envelhecida, também abandonada. Tanto telhas quanto rosto já foram acolhimento, hoje restam apenas exaustão.



Jorge Ricardo escreve ensaios como quem sustenta um estado de atenção. Textos do autor já integraram a coletânea Diamantes no Escuro: Melhores textos da Oficina de Vivian Schlesinger (2024). 


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