Quem nos ensinou a admirar os deuses dos outros?
- Arte Ao Redor

- há 7 horas
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Uma reportagem publicada nos jornais e espalhada pelas redes sociais mostrou um episódio ocorrido em uma escola pública de São Paulo. Durante uma atividade pedagógica, um policial militar entrou na instituição para acusar a diretora de promover "doutrinação ideológica". O caso gerou discussões sobre autonomia escolar, liberdade de ensino e atuação da polícia. Mas, ao ler-se a notícia, vale a pergunta:
Em que momento aprendemos a reconhecer como naturais certas ideias e a desconfiar de outras?
Basta observar uma conversa qualquer. Quase todo brasileiro sabe quem é Thor. Muitos conhecem Odin, Loki e até conseguem contar parte dessas histórias porque as viram no cinema ou em séries. Agora experimente perguntar sobre a Boiúna, sobre Anhangá, sobre Omolu ou sobre Nanã. Alguns lembrarão vagamente dos livros da escola. Outros nunca ouviram falar.
Não existe problema algum em conhecer a mitologia nórdica. Ela faz parte da história cultural da humanidade e produziu narrativas extraordinárias. O estranho é outra coisa: por que conhecemos tão pouco as histórias que nasceram na terra onde vivemos?
Essa diferença costuma ser tratada como simples preferência cultural, mas ela tem história. Nenhuma colonização sobrevive apenas pela ocupação militar. Um território pode ser conquistado pela força; um povo só permanece dominado quando passa a enxergar o mundo pelos olhos de quem o conquistou. É nesse ponto que entram a escola, a religião, a língua, a literatura e os símbolos que uma sociedade aprende a admirar.
Frantz Fanon dedicou boa parte de sua obra a compreender esse mecanismo. Em Pele Negra, Máscaras Brancas, ele descreve como o domínio colonial produz uma inversão silenciosa: a cultura do colonizador passa a representar inteligência, progresso e civilização; a cultura local começa a parecer atraso. O resultado não é apenas político, mas também psicológico. Aos poucos, parte da população deixa de desejar aquilo que lhe pertence e passa a buscar reconhecimento naquilo que vem de fora.
O Brasil conhece bem esse processo. Durante décadas, o samba foi tratado como caso de polícia e a capoeira chegou a ser criminalizada. Práticas religiosas de origem africana eram perseguidas, enquanto diferentes povos indígenas viam suas línguas desaparecerem junto com seus territórios. Nada disso aconteceu porque essas manifestações possuíam menor riqueza cultural. Elas ocupavam, simplesmente, o lado errado da relação de poder.
Darcy Ribeiro observava que a formação brasileira nasceu do encontro (quase nunca pacífico) entre matrizes indígenas, africanas e europeias. O problema surge quando apenas uma dessas matrizes passa a ocupar o lugar de referência para definir que conhecimentos são legítimos ou quais as religião são aceitáveis.
Talvez isso explique por que utilizamos palavras diferentes para fenômenos semelhantes. Raramente alguém chama Zeus ou Thor de personagens do folclore europeu. Eles pertencem à mitologia. A palavra carrega certo prestígio intelectual. Entre nós, histórias indígenas ou afro-brasileiras são frequentemente reduzidas ao "folclore", como se ocupassem um espaço infantil ou pitoresco da cultura. A mudança parece pequena, mas não é. As palavras também distribuem importância.
Os meios de comunicação participam desse processo. O sociólogo Muniz Sodré chama atenção para o fato de que a circulação cultural nunca é neutra. Livros, filmes, séries e plataformas digitais não apenas contam histórias; eles ajudam a decidir quais histórias serão conhecidas em escala mundial e quais permanecerão restritas aos próprios territórios onde nasceram.
Não por acaso, Hollywood transformou a mitologia nórdica em um patrimônio universal. Enquanto isso, nossos encantados, nossos orixás e nossos seres da floresta continuam aparecendo muito menos, quase sempre cercados de explicações ou de certo constrangimento, como se precisassem justificar a própria existência.
A religião oferece outro exemplo dessa permanência histórica. A expansão portuguesa não trouxe apenas soldados e administradores. Trouxe também missionários. A catequese fazia parte do projeto colonial porque modificar a forma como um povo compreende o sagrado também altera sua maneira de compreender o mundo. Povos indígenas foram convertidos; africanos escravizados tiveram seus cultos proibidos ou perseguidos. Muitos preservaram suas crenças associando orixás aos santos católicos, criando formas de resistência que sobreviveram por séculos.
O Brasil tornou-se majoritariamente cristão. Primeiro pela presença do catolicismo; nas últimas décadas, pelo crescimento acelerado das igrejas evangélicas. Enquanto determinadas tradições continuam sendo tratadas como ameaça ou superstição, outras ocupam naturalmente o lugar da verdade.
Paulo Freire chamava esse fenômeno de invasão cultural. O conceito não defende rejeitar toda influência estrangeira. Culturas sempre dialogaram entre si. O que ele questionava era a situação em que um povo perde a capacidade de interpretar a própria realidade porque aprendeu que apenas o olhar do outro possui legitimidade.
Talvez por isso a palavra "ideologia" apareça com tanta facilidade em certos debates. Toda sociedade transmite valores. Toda educação transmite valores. A diferença é que alguns já estão tão incorporados ao cotidiano que deixamos de percebê-los como escolhas históricas.
A notícia que deu origem a esta reflexão fala de uma escola. Poderia falar de um museu, de um livro didático ou de uma roda de capoeira. Em todos esses espaços, a disputa é parecida. Não se trata apenas do que será ensinado, mas de quais memórias uma sociedade considera dignas de permanecer vivas.
Conhecer Thor não nos afasta da Iara. Ler Homero não diminui a força dos mitos dos povos originários nem das narrativas preservadas pelas religiões de matriz africana. No entanto, o empobrecimento começa quando um repertório substitui o outro, quando aprendemos a admirar apenas aquilo que recebeu o selo de prestígio das antigas metrópoles.
Encerramos então com a seguinte pergunta: por que ainda precisamos fazer esforço para conhecer aqueles que nasceram nas águas, nas florestas e nas vozes que formaram o Brasil?
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O apagamento das culturas indígena e africana não é um acaso, é estrutural e estruturante.