50 anos de Alucinação: Belchior e a velhice política do Brasil
- Arte Ao Redor

- há 11 horas
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Em junho de 2026, Alucinação, de Belchior, completa 50 anos. Um disco que não aceita moldura dourada nem se presta bem ao gesto cerimonial. Lançado em 1976, ainda sob a ditadura militar, o álbum ainda é capaz de produzir desconforto porque fala de um país que aprendeu a trocar de vocabulário sem abandonar certas tentações antigas. A autoridade mudou de roupa e o medo mudou de método para que a obediência possa parecer escolha.
Belchior escreveu canções contra a anestesia. Sua voz não buscava o canto belo no sentido confortável da palavra, mas vinha áspera, quase falada, com uma precisão que parecia nascer da urgência. Em Alucinação, a juventude aparece marcada por desencanto, pelo desejo de ruptura e um cansaço precoce. O artista cearense canta a partir de um Brasil submetido à censura e à vigilância. O silêncio imposto pela ditadura militar é burlado por uma crítica que entra pela fissura da linguagem.
Como Nossos Pais talvez seja a canção mais conhecida do disco. A música costuma ser lembrada como um retrato do conflito entre gerações, mas sua força vai além desse embate. Belchior também dirige o olhar para aqueles que acreditavam ter escapado dos ciclos que criticavam. O verso causa desconforto porque toca na sensação de derrota de perceber que a rebeldia, sem notar, também pode reproduzir aquilo que pretendia combater.
O Brasil de 2026 reconhece bem esse risco. Depois dos ataques de 8 de janeiro de 2023 e das investigações que revelaram articulações golpistas envolvendo setores militares, lideranças políticas e redes de desinformação, tornou-se difícil tratar o autoritarismo como um capítulo encerrado da história nacional. Ele reapareceu no espaço público sob novas formas, empunhando celulares em vez de panfletos e reivindicando para si o discurso da salvação nacional.
A extrema-direita contemporânea trabalha com uma habilidade que o século XX já conhecia, mas que as plataformas digitais ampliaram com brutal eficiência: fabricar inimigos e prometer ordem a quem foi ferido pela instabilidade. No Brasil, na América Latina e em outras partes do mundo, esse movimento aprendeu a disputar eleições enquanto desacredita o próprio regime democrático. A palavra liberdade, repetida à exaustão, passa a servir a projetos que atacam direitos, imprensa, universidades, artistas, povos originários e qualquer corpo que não caiba na fantasia de uma nação homogênea.
Belchior desconfiava das frases prontas. Apenas um Rapaz Latino-Americano não é só apresentação de identidade, mas posição histórica. O sujeito que canta sabe que fala de um lugar atravessado por dependência, migração, precariedade e desejo de reconhecimento. Sua América Latina não cabe no exotismo. Ela carrega fome simbólica, raiva contida, uma inteligência que aprendeu a sobreviver fora dos centros autorizados da cultura. Meio século depois, a região ainda oscila entre experiências democráticas frágeis e lideranças que prometem restaurar uma grandeza quase sempre imaginária.
Em Velha Roupa Colorida, a mudança exige mais do que aparência. Esse é um ponto interessante para discutir a permanência política do álbum. A extrema-direita sabe encenar novidade. Usa meme, vídeo curto, estética jovem, linguagem de rebeldia. Mas seu conteúdo costuma remeter a hierarquias antigas cultuando a força, desprezando as diferenças e alimentando uma nostalgia de uma ordem social que nunca foi justa. Belchior, com sua lucidez , ajuda a separar movimento real de fantasia publicitária. Nem tudo que grita contra o sistema deseja liberdade. Algumas vozes querem apenas trocar o dono do chicote.
Sujeito de Sorte ganhou novas camadas ao longo do tempo. O verso sobre o ano passado que morreu reapareceu em momentos de crise como uma espécie de respiração coletiva. Dentro do álbum, a frase, apesar de otimista, não apaga a dor nem absolve o país. Ela apenas impede que o medo tenha a última palavra. Belchior conhecia a diferença entre esperança e propaganda. A primeira nasce difícil, com os pés no chão enquanto a segunda costuma vir limpa demais.
Cinquenta anos depois, Alucinação continua resistindo à condição de peça de museu. O disco faz parte da memória cultural brasileira, mas escutá-lo apenas como patrimônio seria reduzir sua potência. A sequência de canções impressiona ainda hoje, embora talvez não seja esse o aspecto mais duradouro da obra. O que segue provocando o ouvinte é a inquietação que atravessa o álbum inteiro: o que acontece quando a liberdade deixa de ser um ideal abstrato e passa a exigir escolhas concretas?
Belchior cantou antes do fim da ditadura. Nós o escutamos depois de uma tentativa de golpe. Entre esses dois pontos, o Brasil conquistou direitos, enterrou ilusões, viu a democracia nascer com dificuldade e quase a viu ser ferida de novo por dentro das próprias instituições. Alucinação chega aos 50 anos e o disco nos encara. E, nesse olhar, o país ainda aparece jovem demais para desistir e velho demais para fingir inocência.

Escute o álbum Alucinação, de Belchior, no Spotify:
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