O lugar dos nossos mortos

Sabe quando, no meio de um almoço de família, alguém conjuga um verbo no presente e logo se emenda? “O meu pai gosta de... quer dizer, gostava.” A correção dura um segundo, e a conversa segue. A gente sabe que a pessoa se foi há anos, mas o hábito da convivência insiste em mantê-la presente na sala.
Tem vezes, porém, em que o esquecimento assusta. De repente, você percebe que não consegue mais evocar a voz de alguém que dividiu a casa com você por décadas. A foto na estante ajuda a recompor o rosto, mas é muda. Aí você vasculha o celular, acha um vídeo de poucos segundos de um aniversário qualquer, e lá está a voz, pedindo que alguém passe um prato, enquanto a câmera tremia focando no bolo. Hoje, você daria qualquer coisa por mais um minuto daquela gravação que parecia inútil.
O Dia de Finados reúne essas experiências numa data comum. Na porta do cemitério, o vendedor de flores ignora o luto específico de cada um, enquanto lá dentro a relação com o território varia drasticamente: há quem conheça cada curva do caminho até o jazigo da família e quem perambule perdido, perguntando pela quadra tal. As dinâmicas de visita também oscilam, indo de compromissos rápidos a horas dedicadas a limpar o mato das frestas do mármore ou decifrar inscrições corroídas pela chuva, tornando impossível, para um observador externo, distinguir quem cumpre um ritual social de quem foi surpreendido por uma saudade avassaladora, ou mesmo quem esperou o ano todo por aquele momento e, diante da lápide, não sente absolutamente nada.
Mas há um certo consolo no trabalho. É preciso trocar a água das flores, passar um pano na lápide, limpar a foto de porcelana. Diante de uma perda que nos tira qualquer poder de ação, sobra o que está ao alcance das mãos. Quem visita um cemitério sabe a diferença entre chegar e encontrar a sepultura bem cuidada ou descobrir que o sol desbotou a fotografia. O morto não precisa mais que a gente tire a poeira, nós é que ainda precisamos exercer esse gesto de zelar por quem partiu.
Lembrei de Marguerite Yourcenar esses dias. Em O tempo, esse grande escultor, ela se irrita com aqueles ramalhetes deixados sobre os túmulos ainda presos ao papel da floricultura, sem que ninguém se dê ao trabalho de lhes arranjar um recipiente com água. Sua observação, embora dura ao sugerir que transportamos as convenções sociais e a burocracia da homenagem para o cemitério, nos obriga a questionar o julgamento alheio, afinal, quem chega com as flores na mão e não sabe como estar ali acaba repetindo gestos vistos em outros, simplesmente por não saber por onde começar a elaborar a ausência.

Em muitas celebrações mexicanas do Dia dos Mortos, prepara-se a comida de que o falecido gostava. Cozinhar para quem já não está exige lembrar o paladar do outro, ocupar a casa com o cheiro do que lhe dava prazer. Mesmo para quem não acredita no retorno dos mortos, o ato de fazer o prato tem uma força compreensível. Conhecemos isso quando tentamos reproduzir a receita da avó e a família inteira discute na cozinha se levava um determinado ingrediente ou não. A briga pelo tempero traz de volta um pouco da convivência, inclusive aquelas implicâncias que costumam desaparecer das homenagens. Porque os nossos mortos também foram pessoas difíceis. Alguns deixaram pendências que continuam nos perturbando, e a morte encerrou o prazo para aquela conversa que vínhamos adiando. Sentimos falta inclusive de gente de quem sentíamos raiva, o que gera um alívio que custa ser admitido, esbarrando no costume social de só falar bem de quem morreu, o que acaba por criar um retrato póstumo mais harmonioso do que a realidade, dificultando para quem sofreu com essa pessoa a expressão honesta do que viveu sem a sensação de desrespeito à memória.
Yourcenar toca num ponto ainda mais desconfortável ao sugerir que nossos mortos queridos, caso voltassem, poderiam se tornar intrusos, uma vez que a vida seguiu, os móveis foram trocados e decisões foram tomadas sem o seu aval. Dizemos querer revê-los, mas a realidade é que nem sempre saberíamos recebê-los na vida que construímos agora, pois imaginamos o abraço do reencontro, mas raramente pensamos na manhã seguinte, quando teríamos de explicar as mudanças, apresentar novas pessoas ou retomar conversas interrompidas há anos.
Essa percepção incomoda porque esbarra na culpa de continuar vivendo. Rir alto na semana seguinte a um enterro dá um susto. Desfazer-se da camisa do pai parece, por um tempo, um ato de traição. Meses depois, a camisa vai para o saco de doações e o dia segue com seus compromissos. O afeto não desapareceu nesse intervalo. Alguma coisa mudou na nossa relação com aquela roupa, embora seja difícil precisar quando essa transição ocorreu.
O lugar dos mortos também se define nessas decisões domésticas, tomadas sem testemunhas. Há famílias que conservam o quarto de alguém durante anos, enquanto outras precisam esvaziar tudo em uma semana porque o imóvel era alugado e deve ser devolvido. Nem todo mundo dispõe do espaço ou do tempo de que sente precisar. Quem precisa pegar o ônibus na segunda-feira de manhã leva consigo uma perda que o expediente não tem como acomodar, e o Dia de Finados serve um pouco para isso: por um dia, visitar os mortos é uma razão socialmente aceita que quase ninguém questiona.
Passada a data, cada um retorna ao seu apartamento e à sua rotina, enquanto as flores murcham no mármore para serem retiradas numa próxima limpeza e as fotos continuam na estante ou acabam guardadas numa gaveta. Alguém pode achar um bilhete com uma letra conhecida e ficar segurando o papel, sem saber muito bem onde pôr, até que, no próximo almoço, a história de família seja contada novamente, agora com um detalhe errado, pois quem poderia corrigi-la já não está à mesa.
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