Milton e Belchior: duas maneiras de ser latino-americano

26 de outubro. O calendário aproxima dois homens que encontraram maneiras diferentes de cantar o desconforto de viver por aqui. Milton Nascimento e Belchior. Nascidos no mesmo dia, com quatro anos de distância, atravessaram os anos 70 enquanto as ditaduras apertavam o cerco no continente. A fronteira podia ser uma saída, quando dava tempo. Do outro lado, às vezes, havia outra farda.
Milton olhava para além das montanhas de Minas. Quando canta “Canción por la unidad latinoamericana”, de Pablo Milanés, em Clube da Esquina 2, há uma solidariedade que procura ganhar corpo na própria música. As vozes se encontram, o português se aproxima do espanhol e aquele continente imenso parece caber, por alguns minutos, numa sala. Talvez fosse preciso experimentar essa proximidade para acreditar nela. A “Pátria Grande” tinha gente desaparecida, famílias separadas, companheiros que já não voltariam. Em “San Vicente”, sua parceria com Fernando Brant, a cidade guarda o gosto do medo. A esperança de Milton conhece o chão em que pisa, embora continue à procura de uma passagem.
Aí entra Belchior. “Apenas um rapaz latino-americano.” O “apenas” já chega com o peso de quem precisa explicar o que está fazendo ali. Há uma cidade grande pela frente, pouco dinheiro e uma porção de promessas que envelheceram antes dele. A latinidade aparece no corpo de quem saiu de casa e agora tem de arranjar um lugar, um trabalho, alguém com quem conversar depois do expediente. O interior ficou longe, mas continua metido na fala, nos hábitos, no estranhamento diante da vida nova. Voltar tampouco resolveria tudo. Quem foi embora já viu coisas demais para encontrar a casa exatamente como a deixou.
Seria cômodo achar que um cuidava do céu e o outro do bolso. Mas a conta do aluguel também assombra a utopia, e o cearense também quer mudar o mundo — sua impaciência vem daí. Em “Como nossos pais”, o que dói é perceber a permanência dos velhos modos dentro de uma geração que acreditou estar rompendo com eles. Há desejo naquela cobrança, há uma expectativa que se recusa a morrer sossegada. A solidariedade que Milton canta também conhece esse aperto. Talvez a diferença esteja no lugar de onde cada voz começa: nele, escuto com frequência a procura por um “nós”; em Belchior, alguém tenta falar por si e esbarra numa multidão vivendo o mesmo aperto.
A gente ouve os dois em momentos diferentes, às vezes no mesmo dia. Há manhãs em que a voz de Milton ajuda a sair de casa. Mais tarde, no ônibus cheio, uma frase de Belchior volta sem pedir licença. O trabalho fica longe, o dinheiro anda curto, e aquela ideia de América Latina, que parecia assunto de livro ou de discurso, começa a adquirir uma familiaridade incômoda. Na volta, dá vontade de ouvir a música inteira.




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