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Mosaico

Foto do escritor: Arte Ao Redor
Arte Ao Redor
há 3 horas
1 min de leitura

Mosaico

(Jorge Ricardo)


O velho abacateiro decanta seus galhos sobre os vergalhões enferrujados. Pedaços de azulejos ainda resistem em meio a rachaduras e ninhos de andorinhas. O mato cresce alto e, assim como os galhos, arvorece o espaço esvaziado. Às vezes aparecem cães, pipas e crianças na laje, em dias de sol. Mas é raro, porque o sol também é raro. Em meio a névoa espessa, as andorinhas entram e saem de seus ninhos. Na parede daquela velha construção também resiste um mosaico. Ali viveu, certamente, um homem que gostava de demorar.


Lá embaixo pelas ruas esburacadas, desfilam miniaturas descalças. Crianças-passarinho chutam abacates, vivendo sem vírgulas. Desconhecem aindas e outroras. Dois vira-latas reviram o lixo em frente ao monumento desestabelecido. Tudo ali é queda. Em breve, não restará nenhuma memória. O pouco que ainda insiste vai se desmanchando junto ao reboco desgastado da parede.


As luzes de Natal, apegadas a fios partidos, pendem ainda do galho envelhecido. De vez em quando, ainda acendem seu espetáculo, mesmo não tendo nenhum público.


Amanhece mais uma vez. Os raios de sol revelam as cores do mosaico no que resta da parede do casebre. Em meio ao entulho acumulado jaz um caroço de abacate, de onde emerge, vigorosamente, uma haste firme, com duas ou três folhas verdes.

Imagem desfocada da silhueta de um rapaz diante da cortina de uma janela, com luz suave ao fundo e atmosfera contemplativa.

Jorge Ricardo escreve ensaios como quem sustenta um estado de atenção. Textos do autor já integraram a coletânea Diamantes no Escuro: Melhores textos da Oficina de Vivian Schlesinger (2024). 

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