Traduzir-se, de Ferreira Gullar


Às vésperas do aniversário de Ferreira Gullar, lembramos Traduzir-se, poema em que o autor olha para as partes contraditórias que convivem dentro de cada pessoa — aquilo que mostramos ao mundo e aquilo que nem sempre sabemos nomear. Com poucos versos e nenhuma resposta fácil, Gullar transforma essa divisão íntima numa pergunta sobre a própria arte.
Traduzir-se
(Ferreira Gullar)
Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?
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