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Contranarciso, de Paulo Leminski

  • Foto do escritor: Arte Ao Redor
    Arte Ao Redor
  • há 22 horas
  • 1 min de leitura

No dia 24 de agosto de 1944 nascia, em Curitiba, Paulo Leminski, um dos poetas mais singulares da literatura brasileira contemporânea. Dono de uma escrita que parecia gostar tanto do pensamento quanto da brincadeira, Leminski conseguia dizer muito com pouco; às vezes desmontando uma palavra, uma expressão conhecida ou, como aqui, um mito inteiro.


Em Contranarciso, o espelho não devolve apenas a própria imagem. Ao contrário do Narciso mitológico, fascinado por si mesmo, o poeta olha para dentro e encontra os outros. A identidade deixa de ser algo isolado: somos feitos também das pessoas que nos atravessam, das que permanecem e até daquelas em quem, de algum modo, continuamos.


Talvez por isso o verso final seja tão simples e tão bonito: estar só não significa necessariamente estar sozinho.


Contranarciso

(Paulo Leminski)


em mim

eu vejo

o outro

e outro

enfim dezenas

trens passando

vagões cheios de gente centenas


o outro

que há em mim é você

você

e você


assim como

eu estou em você

eu estou nele

em nós

e só quando

estamos em nós

estamos em paz

mesmo que estejamos a sós

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