Faça sol ou faça tempestade, de Adão Ventura

Adão Ventura nasceu em 1939, em Santo Antônio do Itambé, então distrito do Serro, na região do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. Levou para a poesia uma voz de pedra seca, memória de terra batida e ferida aberta pelo racismo brasileiro. Formado em Direito pela UFMG, trabalhou no Suplemento Literário de Minas Gerais, foi professor convidado nos Estados Unidos e encontrou em A cor da pele um ponto de enfrentamento: a palavra ali não enfeita a dor negra para torná-la aceitável.
Em seus poemas, a pele nunca é simples aparência. Ela guarda uma história que o país tenta empurrar para baixo do tapete, ou para debaixo das igrejas, das praças, dos discursos cordiais. O corpo negro, em Adão Ventura, aparece cercado por muros antigos, mesmo quando esses muros já não se apresentam com o nome de escravidão. Seus versos são curtos, mas pesam. Não pedem permissão ao leitor.
“Faça sol ou faça tempestade” trabalha com essa insistência. A repetição volta como marca, quase como batida de enxada em chão duro. O poema não explica o racismo, mas mostra o corpo atingido por ele. Faça sol, faça tempestade, a pele negra permanece como abrigo e cerco, proteção e condenação social.
Faça sol ou faça tempestade
(Adão Ventura)
faça sol ou faça tempestade,
meu corpo é fechado
por esta pele negra.
faça sol ou faça tempestade
meu corpo é cercado
por estes muros altos,
— currais
onde ainda se coagula
o sangue dos escravos.
faça sol
ou faça tempestade,
meu corpo é fechado
por esta pele negra.
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