Amnésia de um dia

Amnésia de um dia (Jorge Ricardo)
O escaravelho explora os restos de uma parede de concreto. O seu escuro vagueia entre o cinza esverdeado do cimento e o roxo indefinido das veias-vergalhões. Desaparece no escuro do casebre abandonado.
Do portão só resta um esboço. Hoje tem uma fechadura que não fecha, dobradiças que não dobram e uma cor que não desperta. O portão é atravessado por um vão. É por ali que os bichos maiores entram nas noites de chuva: cães vira-latas, gambás, ratazanas e outros tantos. E, sim, também o louco, mas apenas em dias de chuva. Tudo silêncio.
Nos outros dias, na frente da casa, numa calçada com buracos vivos, o som é sempre alto. Parece que quebra o mundo. O louco permanece ali explorando os trecos encontrados no lixo. Fica ali com o que já foi. Brinca com peças coloridas: flores de plástico, encaixe do fundo, copo e, por último, o gancho. Um bebedouro para os passarinhos. Pendura ao seu lado, bem no alto. Logo aparecem beija-flores tentando bebericar da sua opção-poção. Esquece os outros trecos.
Ninguém percebe o louco. Fogem dele, de suas falas, de seu passado incerto. Possui olhos úmidos de março e uma amnésia turva que lembra. O louco tem dificuldade de se levantar, de comer, de agir, de parágrafos e de vírgulas. A eternidade do louco é feita de apenas um dia. Mas, nesse dia, fica observando beija-flores bebericando água com açúcar, num bebedouro feito de arco-íris. Quem olha de fora não percebe flores no bebedouro. Não sobreviveram ao lixo. Num momento plácido, o louco aproxima o dedo do escaravelho, que está de cabeça para baixo e não consegue se virar. Ao ver o pequeno caminhar rumo à escuridão, sorri.

Jorge Ricardo escreve ensaios como quem sustenta um estado de atenção. Textos do autor já integraram a coletânea Diamantes no Escuro: Melhores textos da Oficina de Vivian Schlesinger (2024).


Que delicadeza de texto!