Et Vidit
- Arte Ao Redor

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Et Vidit (Jorge Ricardo)
No quando das asas, os pequeninos pontos escuros amanhecem para o clarão. As cabecinhas buscam. É um sol frágil, mas basta para que esse momento seja o parto essencial do nascer das formas.
A fila se dispersa na abertura da porta do cinema. O brilho, que vem de dentro, atrai a todos como mariposas rondando uma lamparina. A tela finalmente acende. Dentro da sala o ar condiciona o frio da alma. Alguns olhos começam a soluçar, outros engasgam com tantas imagens e calam até os ouvidos. As bocas tentam se comunicar, mas estão cegas, e suas palavras, ocas. E num susto, a total escuridão. Um pequeno vaga-lume é visto sobrevoando o vazio. Os olhos, antes sobrecarregados, voltam ao seu estado primordial de frágeis ingenuos: pequenos pontos escuros. A hipnose é completa. As cabeças balançam acompanhando o voo errático do pequeno. Buscam. Olhos, antes surdos, começam a ouvir novamente. Vaga o lume na treva até que silenciosamente desaparece.
No ninho, os pequenos pontos se abrem, e mais do que formas, percebem cores e a face da mãe envolta no silêncio sagrado. Assim foi com um momento que, perdido no tempo, estremeceu e viu.

Jorge Ricardo escreve ensaios como quem sustenta um estado de atenção. Textos do autor já integraram a coletânea Diamantes no Escuro: Melhores textos da Oficina de Vivian Schlesinger (2024).




Grandes nomes de pessoas eruditas, que nos deixaram saudades!