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Três datas, uma pergunta: quem decide o dia da poesia?

  • Foto do escritor: Arte Ao Redor
    Arte Ao Redor
  • há 9 horas
  • 2 min de leitura

Dois dias atrás, 14 de março, muita gente celebrou o que, por tradição, costuma chamar de “Dia da Poesia”, associado ao nascimento de Castro Alves (1847–1871). Mas, no Brasil, existe também um “carimbo oficial”: desde 2015, por lei, o Dia Nacional da Poesia é 31 de outubro, aniversário de Carlos Drummond de Andrade.


E como se isso não bastasse, a poesia ainda tem um terceiro relógio: 21 de março é o Dia Mundial (ou Internacional) da Poesia, reconhecido pela UNESCO desde 1999.

A soma dessas datas expõe uma pergunta simples e incômoda, e por isso mesmo interessante: quem decide o calendário da poesia?


Quem decide?


No papel, decide o Estado. A data nacional existe porque uma lei a instituiu e escolheu 31 de outubro como marco oficial.


Mas a poesia não vive só no papel. A tradição — como a do 14 de março — nasce da repetição cultural: do que é ensinado, lembrado, comemorado, recitado. E o 21 de março, por sua vez, mostra outra esfera de decisão: a tentativa internacional de usar a poesia como ponte de diversidade linguística, intercâmbio cultural e valorização de vozes que desaparecem quando uma língua se cala.


No fim, o calendário poético é feito por muitas mãos: escola, imprensa, instituições culturais, coletivos, leitores. A lei organiza, mas a cultura é viva; e a escolha do que permanece escapa ao institucional.


Por que o 14 de março insiste?


Porque Castro Alves não é lembrado só como “um poeta importante”, mas como alguém que transformou o verso em ato público. Sua poesia abolicionista não foi escrita para enfeitar, mas também para expor, acusar, constranger a injustiça. O poema como praça: um lugar onde a beleza não serve de cortina, mas de luz.


Por isso, 14 de março ainda reaparece a cada ano mesmo sem ser a data “oficial”. Ele carrega uma lembrança nem sempre confortável, mas necessária: há momentos em que a poesia escolhe lado — e, ao escolher, ela vira memória em brasa.


E Como o 21 de março ajuda este texto?


Ele amplia o foco, lembrando que a poesia não é apenas patrimônio nacional, nem apenas disputa de datas internas. É uma linguagem humana universal — e, ao mesmo tempo, um campo de batalha onde línguas, culturas e tradições tentam sobreviver.


Entre o 14 de março (tradição), o 31 de outubro (oficialidade) e o 21 de março (marco internacional), a percepção de que a poesia não cabe num único quadrinho do calendário.


Dois dias depois, talvez seja melhor


Publicar isto em 16 de março tem uma vantagem: a efeméride já esfriou, e a poesia trabalha melhor fora do palanque. No fim, o “dia da poesia” não é só uma data — é o momento em que alguém abre um poema e permite que a linguagem faça o que sabe: mudar o estado das coisas, nem que seja por dentro.

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