Frestas
- Ao Redor - Cultura e Arte

- há 1 dia
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Frestas
(Jorge Ricardo)
Assim como a lagartixa desaparece numa fresta da parede fatigada, também deslizamos por entre as ranhuras da existência no tempo, procurando um abrigo nas brechas mínimas onde a verdade – a guilhotina definitiva – não penetre com violência. Ansiamos por qualquer ruído que não nos confronte com o silêncio do absoluto. Não é do escuro que temos medo, mas do silêncio insuportável que revela o quanto somos breves ecos do ocaso.
Vivemos estreitos, escapando não do mundo, mas do nu da verdade última: estamos a caminho do fim desde o primeiro gesto de ar. Escapando como a lagartixa, buscamos instantes, fragmentos, pedaços onde o fio da tal guilhotina não nos encurrale. É por isso que amamos distrações, silêncios falsos, rotinas que pareçam eternas. E nessa distração cotidiana vamos nos percebendo passageiros sem passagem, seres não de encanto, mas de bordas e de quases.
Viver, portanto, talvez seja exatamente isso: uma sofisticada arte de omissão, um delicado exercício de cegueira proferido diante do óbvio. Inventamos rotas, crenças, desejos; construímos fugas do que sabemos inevitável. Mas o inevitável, silencioso, apenas sorri.
A questão não é simplesmente aceitar desaparecer — o que a lagartixa faz muito bem, por sinal —, mas, apesar de viver com a lucidez da sentença, da inevitável ausência futura, anestesiar-nos na esperança de que o esquecimento ainda seja possível. Somos seres feitos de tempo que fingem ser feitos de eternidade.
E enquanto a lagartixa esvanece silenciosa, quase sem deixar rastro de sua breve passagem, nós, igualmente transitórios, habitamos secretamente essas frestas da existência com uma poesia discreta, sabendo que só ali — nessa impermanência reconhecida e aceita — reside alguma forma sutil e real de eternidade.

Jorge Ricardo escreve ensaios como quem sustenta um estado de atenção. Textos do autor já integraram a coletânea Diamantes no Escuro: Melhores textos da Oficina de Vivian Schlesinger (2024).
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