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Sombras, de Cora Coralina

  • Foto do escritor: Arte Ao Redor
    Arte Ao Redor
  • há 2 dias
  • 1 min de leitura

Em “Sombras”, Cora Coralina transforma a perda progressiva da visão em uma reflexão sobre o envelhecimento, o cansaço e os limites do corpo. A repetição de “estou cansada” ganha força justamente por vir de uma mulher que fez da resistência uma marca de sua vida e de sua poesia.


Nascida em Goiás Velho, em 20 de agosto de 1889, Cora escreveu como poucas sobre o tempo, a memória e a experiência de envelhecer.


Sombras

(Cora Coralina)


Tudo em mim vai se apagando.

Cede minha força de mulher de luta em dizer:

estou cansada.


A claridade se faz em névoa e bruma.

O livro amado: o negro das letras se embaralham,

entortam as linhas paralelas.

Dançam as palavras,

a distância se faz em quebra luz.


Deixo de reconhecer rostos amigos, familiares.

Um véu tênue vai se incorporando no campo da retina.

Passam lentamente como ovelhas mansas os vultos conhecidos

que já não reconheço.

É a catarata amortalhando a visão que se faz sombra.


Sinto que cede meu valor de mulher de luta,

e eu me confesso:

estou cansada.

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