A liberdade, segundo Dom Quixote


Não se sabe ao certo o dia em que Miguel de Cervantes nasceu, embora a tradição situe seu nascimento no fim de setembro de 1547. Mais de quatro séculos depois, algumas palavras de Dom Quixote parecem conservar intacta a capacidade de atravessar o tempo.
No capítulo LVIII da segunda parte do romance, depois de deixar o castelo dos duques, Dom Quixote fala a Sancho sobre aquilo que considera um dos maiores bens concedidos ao homem: a liberdade. Não a liberdade como palavra grandiosa ou princípio abstrato, mas como a possibilidade de viver sem que favores, recompensas ou confortos se transformem em amarras.
É então que diz:
"— A liberdade, Sancho, é um dos mais preciosos dons que os céus deram aos homens; não podem se comparar com ela os tesouros que a terra abriga nem o mar esconde; pela liberdade, assim como pela honra, se pode e se deve arriscar a vida. O cativeiro, pelo contrário, é o maior mal que pode ocorrer aos homens. Digo isso, Sancho, porque viste muito bem o conforto e a abundância que tivemos nesse castelo que deixamos; pois em meio àqueles banquetes deliciosos e àquelas bebidas geladas como neve me parecia que estava entalado nas misérias da fome, porque não os desfrutava com a liberdade que desfrutaria se fossem meus: as obrigações pelas recompensas, pelos benefícios e mercês recebidos são ataduras que não deixam o espírito campear livre. Feliz daquele a quem o céu deu um pedaço de pão sem que tenha a obrigação de agradecê-lo a outro que não ao próprio céu."
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