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O Tempo Roubado: Atenção, Arte e o Cansaço de Existir em Ritmo Artificial

  • Foto do escritor: Ao Redor - Cultura e Arte
    Ao Redor - Cultura e Arte
  • há 1 dia
  • 4 min de leitura

Não foi o cérebro que mudou. Foi o mundo que passou a exigir dele um ritmo impossível.


Vivemos sob a impressão de que a atenção humana encolheu, que já não somos capazes de permanecer diante de um filme lento, de um texto denso, de uma música que demora a chegar. Costuma-se dizer, com certa condescendência tecnológica, que “as pessoas não têm mais paciência”. Mas talvez o diagnóstico esteja invertido. Não se trata de impaciência; trata-se de exaustão. A atenção não morreu. Ela foi explorada até o limite.


O cérebro não é uma máquina de fluxo contínuo


O cérebro humano funciona em ciclos. A atenção se organiza em janelas curtas, que exigem variação, pausa, respiro. Após algum tempo de foco intenso, algo precisa mudar. Após alguns minutos de atenção sustentada, o cérebro pede recompensa simbólica ou descanso. Sem isso, ele se defende: dispersa, anestesia, desliga. Esse não é um defeito. É um mecanismo de sobrevivência.


Quando ignoramos esse ritmo — seja na arte, no trabalho ou no consumo cultural — o que surge não é profundidade, mas desgaste. O tédio, nesse contexto, não é falta de interesse: é um sinal fisiológico de saturação.


Cada arte negocia o tempo de um jeito


Toda linguagem artística estabelece um pacto temporal com quem a recebe. O cinema impõe o ritmo; o corte decide quando algo muda. Por isso, quando a densidade dramática não sustenta o plano, a atenção cai rapidamente. O teatro, ao contrário, compartilha o tempo: o corpo vivo do ator ancora a escuta e permite sustentações mais longas, desde que haja pulsação emocional. A música trabalha em ciclos: repete, mas transforma; cria expectativa e a frustra delicadamente. A literatura negocia: o leitor controla o ritmo, mas abandona o texto quando nada se desloca — não necessariamente na ação, mas no pensamento, na imagem, no afeto. Já as artes visuais não exigem duração; oferecem convite. O olhar permanece enquanto encontra camadas. Quando não encontra, segue adiante. Nenhuma dessas artes pede pressa. Todas pedem sentido em movimento.


O que as redes sociais fizeram com o tempo


As redes sociais não inventaram um novo cérebro. Inventaram um ambiente que opera sistematicamente contra seus ciclos naturais. Fragmentaram o tempo em estímulos de poucos segundos. Eliminaram a pausa. Transformaram a atenção em recurso disputado, não em espaço de encontro. Criaram recompensas rápidas, imprevisíveis e superficiais — likes, visualizações, reações — que ativam prazer imediato, mas não constroem memória. O resultado é um cérebro permanentemente em estado de alerta, preso a um presente contínuo que nunca se fecha. Nada se consolida. Nada repousa. Tudo passa. Não é surpresa que, nesse ambiente, cresçam a ansiedade difusa, a dificuldade de concentração, a sensação de vazio e a incapacidade de sentir prazer durável. Não se trata de fragilidade individual. Trata-se de descompasso entre biologia e cultura.


Há algo particularmente violento nesse processo: a demonização do silêncio. Pausas passaram a ser vistas como falhas. Lentidão, como incompetência. Ambiguidade, como risco. Tudo precisa capturar imediatamente, manter estímulo constante e justificar sua permanência a cada segundo. Mas sem silêncio não há memória. Sem pausa não há elaboração. Sem tempo não há transformação. Aquilo que não encontra espaço para se inscrever no corpo e na lembrança simplesmente desaparece. É consumido, não vivido.


A lentidão como gesto ético


Diante disso, a lentidão deixa de ser apenas uma escolha estética. Ela se torna um gesto ético. Respeitar o timing do cérebro não é facilitar a arte, nem torná-la palatável. É reconhecer que toda experiência simbólica precisa atravessar etapas: percepção, emoção, pausa, integração. Pular essas etapas é produzir impacto sem permanência, choque sem sentido. Criar hoje implica decidir se a obra irá competir com o ruído ou se irá abrir uma clareira dentro dele. Talvez por isso textos longos ainda encontrem leitores, filmes lentos ainda encontrem espectadores e concertos silenciosos ainda encontrem ouvintes. Não apesar do mundo acelerado, mas contra ele. Porque oferecem algo cada vez mais raro: um tempo que não agride.


No fundo, pensar o tempo da arte é pensar o cuidado com o outro. Com o corpo do outro. Com o cansaço do outro. Com a atenção do outro. Não se trata de pedir menos estímulo, mas mais responsabilidade. Não se trata de nostalgia, mas de lucidez. O cérebro humano não rejeita complexidade. Rejeita abuso. Talvez uma das tarefas mais urgentes da arte hoje seja essa: devolver o tempo ao humano, antes que ele se perca de vez em ritmos que não foram feitos para viver, apenas para consumir. Porque o que a arte faz quando acerta o tempo não é prender a atenção, é permitir que ela permaneça. E isso, num mundo que tudo acelera, já é um ato de resistência.


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Lançado em 2024, o livro "Arte em debate: reflexões contemporâneas", da autora Luiza Pessôa, artista, graduada em História e pós-graduada em História da Arte, reúne artigos revisados e ampliados do blog Ao Redor Cultura e Arte que abordam temas relacionados à arte, além de textos inéditos da autora.

1 comentário


Márcia Cristina Leite Rosa
Márcia Cristina Leite Rosa
há 18 horas

Os textos de Ao Redor são sempre profundos e altamente informativos.

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