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A produção Musical Independente

Atualizado: Jul 12

O artigo de hoje é o segundo de uma trilogia de artigos do Ao Redor sobre arte independente. Na semana passada, conversamos com artistas do teatro e da dança. E hoje, o nosso assunto é a produção musical independente. O Ao Redor conversou com os músicos Paulinho Carvalho e Sandro Gomes, músicos que já produziram seus próprios trabalhos, para entender melhor esse universo.


O cenário da música independente cresce à medida que a tecnologia coloca à disposição do artista cada vez mais ferramentas que facilitam o processo de criação, gravação e distribuição. Torna-se cada vez mais praticável gravar e lançar um álbum fora dos estúdios profissionais e sem precisar das grandes gravadoras.

Uma pesquisa da ABMI (Associação Brasileira da Música Independente), lançada em 15 de outubro de 2020, revelou que 53% dos artistas que estiveram no Top 200 do Spotify são independentes.


As plataformas digitais beneficiam produtores e músicos independentes e favorecem a democratização da produção musical. A pesquisa mostra ainda que o consumo de músicas nas plataformas de streaming aumentou consideravelmente durante a pandemia. Mais uma vez revelando como a arte se mostrou essencial na vida das pessoas durante a pandemia, algo que já apontamos aqui em artigos anteriores, mas que é sempre bom observar.


É claro que o aumento de oportunidades também faz com que a concorrência seja maior. Talvez “concorrência” não seja uma boa palavra nesse caso, já que o mesmo público consome diversos artistas e sempre haverá alguém interessado no que um músico ou banda está produzindo, mas o cenário exige um maior esforço para que o artista tenha visibilidade, como apontou o músico Paulinho Carvalho em nossa conversa:


“[...] Um ponto que acho complicado é o marketing desse trabalho. A divulgação em si. Hoje temos acesso a milhares de conteúdos on-line, e fazer o nosso se destacar é uma tarefa árdua. As grandes gravadoras têm acesso à rádio e à televisão, o que facilita esse processo, nós, independentes, não. Então, a divulgação e o marketing de venda são cruciais nesse momento, pois não adianta termos nossa música lançada e ninguém ouvir.”(Paulinho Carvalho)


Paulinho se aproximou cedo da música. Aos 06 anos começou a estudar piano, aos 09 descobriu outros instrumentos e gêneros musicais e se encantou pela guitarra, instrumento pelo qual é apaixonado até hoje. Aos 15 anos tocou na “Age of Quarrel”, uma banda de Hard Core que teve bastante expressão na época. Por essa banda teve alguns trabalhos produzidos pelo selo argentino “Sudamerica HC”. Atualmente concilia seu trabalho autoral solo com as atividades da banda de forró “Os Improváveis” com a qual esteve em turnê na Alemanha em setembro de 2019. O músico nos contou que o trabalho da banda foi todo gravado em casa. Perguntamos como tem sido a experiência com a produção independente:


“Eu tenho gostado bastante de trabalhar de forma independente, faço toda a parte de captação a masterização, pois também trabalho como técnico de áudio e produção musical, então me facilita esse processo. O trabalho dos 'Improváveis' foi todo gravado em casa [...] Precisei ainda estudar a parte legal, para gerar os ISRCs das músicas e fazer a distribuição delas em plataformas digitais como Spotify, Deezer, YouTube, entre outras. Posteriormente, já sabendo como era o trâmite desses processos, lancei meu trabalho solo, o “Weird Mustache”, que é um compilado de músicas minhas que estavam paradas. Fiz tudo sozinho, da execução dos instrumentos à distribuição”.


O lançamento de um trabalho musical envolve várias etapas, podemos citar: captação, gravação, edição, mixagem, masterização, distribuição.


Paulinho acredita que com as ferramentas oferecidas hoje pela tecnologia, os músicos podem fazer todo o processo sozinhos sem grandes dificuldades, mas aponta para a necessidade dos cuidados com a gravação e a qualidade do que se está produzindo:


“A produção de uma música requer muito cuidado e muitos detalhes que ainda passam despercebidos por muitos músicos, principalmente nos arranjos de background das músicas. Coisas que a gente às vezes nem percebe que estão na música, mas se tirarmos faz muita diferença. Então, precisamos ter mais cuidado com as produções”.


Sandro Gomes, vocalista da banda petropolitana Concreto Humano, criada em meados de 2015, montou há pouco tempo um estúdio de gravações em sua casa. Sandro, que tem uma formação acadêmica em direito, reconhece a parte legal e burocrática como um dos maiores desafios para o artista independente. Segundo Sandro, seu conhecimento em direito facilita esse processo, mas ele entende que, para a maioria dos músicos, ter que lidar com a parte burocrática pode ser desgastante e desafiador. No entanto, Sandro afirma que vale a pena pela liberdade que o artista tem quando ganha essa autonomia. Nas palavras do músico:


“O artista independente que quiser alçar voos mais altos, gravar um CD, por exemplo, e publicar esse CD oficialmente, terá uma burocracia à frente dele. [...] Quando o artista resolve ser independente eu acho que é a melhor coisa que ele faz porque se torna dono de si e da sua produção. É claro que, como diz a frase: 'grandes poderes trazem grandes responsabilidades'. Então, quando você tem o poder sobre a sua carreira, sua arte, você tem responsabilidades maiores e precisa ter conhecimentos que vão além de poder só subir no palco e tocar, cantar, atuar [...]”.


Mas para Sandro, o trabalho vale à pena e a motivação vem da própria razão de ser da arte, do que a arte propicia ao público e ao artista.


“Amigos às vezes me dizem que eu viro outra pessoa quando eu subo no palco. Eu respondo que não, que eu viro outra pessoa quando eu desço do palco [...] A arte me proporciona a oportunidade de me tornar o que eu sou de verdade, o que no dia a dia eu não consigo por vários motivos”.


E naturalmente, quando o artista se torna independente essa oportunidade de ser ele mesmo se amplia.


Conheça o trabalho desses artistas através dos links abaixo:


Paulinho Carvalho

@paulinhocarvalho78

Os Improváveis no YouTube

Weird Mustache no Spotify


Sandro Gomes

@sandrogomes.ch

@concretohumano

Concreto Humano no YouTube


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