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Cias Independentes

A publicação de hoje faz parte da nossa série de artigos sobre arte independente. Durante a série, falaremos sobre os processos de criação, produção, distribuição e sobre as novas ferramentas que contribuem para a democratização da produção artística. Conversaremos com artistas dos diversos segmentos (escritores, músicos, bailarinos) que trabalham de forma independente para conhecer suas experiências, seus êxitos e suas dificuldades. Para abrir essa série, conversamos com artistas do teatro e da dança para entender o trabalho desses profissionais.


Uma companhia artística independente é aquela que não está ligada nem é mantida por nenhuma instituição. A verdade é que a maioria das companhias brasileiras de teatro e de dança são companhias independentes. Isso significa que elas precisam financiar suas próprias produções ou correr atrás de patrocínios públicos ou privados para a realização de seus projetos ou espetáculos.


A realidade atual é de poucas iniciativas de incentivo à arte e à cultura por parte do governo e de pouca valorização por parte do público em geral. Nesse cenário, muitas vezes resta à companhia contar com o retorno financeiro da bilheteria que, dificilmente, cobre os gastos de produção e não é garantido.


Colocar um espetáculo em cena pode ser muito custoso. Para uma companhia independente competir com grandes produções patrocinadas e voltadas para o grande público é bastante difícil. Os gastos são altos: aluguel de teatro, figurinos, técnicos de espetáculo, cenografia e por aí vai. Além disso, esses artistas doam seu tempo aos ensaios por longos períodos, muitas vezes sem retorno financeiro.


Para que o leitor possa entender melhor a realidade dessas companhias, é preciso entender que enquanto uma companhia financiada recebe para produzir, as companhias independentes precisam construir um trabalho primeiro para depois tentar vendê-lo. E essa construção exige muito esforço, dedicação, horas de ensaios, além de todo trabalho de produção que, neste caso, fica quase sempre por conta dos próprios artistas. Alguns editais públicos pagam pelo projeto para que então se possa realizá-lo com financiamento, mas isso não é o mais comum, além disso, exige que os artistas se dediquem à elaboração dos projetos para os editais, entendam da parte burocrática, de produção e leis de incentivo.


No entanto, para Luiza, diretora e bailarina da Corpoiesis, companhia de dança contemporânea fundada por artistas independentes em 2017, o mais difícil não são as dificuldades financeiras ou profissionais, mas a falta de reconhecimento da profissão.


“As pessoas não consideram que o que você faz é trabalho porque nem sempre você está recebendo. Não te entendem como profissional pelo seu trabalho, comprometimento ou qualidade do que está produzindo. Quando sou questionada, tento explicar comparando com qualquer outra atividade comercial que você precisa investir e comprar o material ou a matéria-prima para depois vender. Primeiro você gasta para depois ganhar. Só que no nosso caso, investimos nosso tempo e nossa força de trabalho. É difícil, pois o tempo de concepção, criação e ensaios de um espetáculo às vezes é longo, mas entendo que faz parte do nosso trabalho e seria razoável desde que tivéssemos mais reconhecimento e iniciativas de incentivo aumentando nossas possibilidades de retorno.”


Quando esse retorno não vem, os artistas precisam de outra fonte de renda, o que gera jornadas duplas de trabalho.


“Muitas vezes já me aconselharam a “ter um trabalho” e fazer o que gosto nas horas vagas. Gostar do que faço não torna isso menos trabalhoso. Quando você tem uma companhia independente, normalmente participa de todas as etapas de produção O que as pessoas não entendem é que não é um 'hobby', não dá pra pensar, criar, ensaiar, produzir, escrever projetos, captar verbas...nas horas vagas. Se soubessem tudo que um espetáculo de dança envolve, talvez entendessem" (Luiza Pessôa).


Segundo Luiza, mais da metade das produções de sua Cia, desde a sua fundação em 2017, foram realizadas através de editais públicos. Os editais públicos são uma forma importante de democratização das artes. Eles aumentam as possibilidades de financiamento de companhias pequenas e independentes, viabilizando a competitividade e diversificando a oferta cultural, já que empresas privadas normalmente priorizam as produções mais comerciais e voltadas para o grande público.

Mas o investimento público no setor cultural, que nunca foi o ideal, vem caindo ainda mais nos últimos anos, conforme mostram dados da pesquisa do IBGE sobre o setor.


"Os gastos públicos no setor cultural, consolidados nas três esferas de governo, representaram aproximadamente 0,2% do total das despesas consolidadas da administração pública, para o ano de 2018. Os governos estaduais e municipais apresentaram quedas destacadas na participação dos gastos públicos com cultura" (Sistema de informações e indicadores culturais: 2007-2018 / IBGE, Coordenação de População e Indicadores Sociais. - Rio de Janeiro, IBGE, 2019).


O Ao Redor quis saber, diante desses relatos, por que os artistas continuam produzindo? O que os motiva? Seguem os depoimentos:


"Apesar de todas as dificuldades, poder fazer um trabalho artístico sempre será prioridade pra mim. Tenho medo de um dia não ter essa opção, mas enquanto eu puder sempre será a minha escolha. Produzir arte é poder me expressar. A arte, pra mim, vem como um alívio de todo o peso da vida, o peso de ser um ser humano, de estar numa sociedade que tem um monte de problemas, e a arte permite que eu me expresse sobre tudo isso" (Thais Melegario, intérprete-bailarina e professora de dança, 30 anos).


"Porque a arte me restaura...é o que dá sentido pra minha vida [...] A arte é salvadora, é necessária, é inquietadora e pra mim, ela dá sentido a minha existência" (Roberta Bertelli). Roberta é bailarina e formada em administração de empresas, para preservar suas atividades no setor cultural precisa manter uma jornada dupla trabalhando como chefe de departamento pessoal durante a semana e ensaiando com sua Cia nos fins de semana ou à noite.


"A dança me aprisiona, porque mexe com muitas inseguranças minhas, mas ao mesmo tempo me liberta, porque é ela que me ajuda a superar essas minhas dificuldades" (Paloma Clinquart, bailarina, graduanda em dança pela Faculdade Angel Vianna, já trabalhou como bailarina, assistente de direção e produção em duas companhias independentes).


Reconhecer o trabalho desses profissionais e valorizar iniciativas de incentivo às artes é essencial para que esses artistas possam continuar produzindo. Ou já pararam pra imaginar se eles desistissem? Como seria o mundo sem música, sem dança, sem teatro, sem cinema...

foto de espetáculo da Cia Corpoiesis, três bailarinas deitadas no chão e uma bailarina em pé de costas ao fundo do palco.
"Quarto Catedral", Cia Corpoiesis, Petrópolis, 2017. Produzido pelos artistas da Cia.

Nossa conversa sobre arte independente continua na próxima semana com músicos independentes. Vamos conhecer as etapas da produção musical e entender como as novas tecnologias contribuem para o trabalho desses artistas.


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