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Como a invenção da fotografia transformou a pintura

A invenção da fotografia na primeira metade do século XIX gerou fortes mudanças na maneira de se pensar a representação da realidade provocando uma crise na pintura.

Quais foram essas mudanças e como essa crise contribuiu para o nascimento da chamada "arte moderna"?


A fotografia foi responsável por uma grande revolução na pintura, já que possibilitava uma representação “perfeita” do objeto fotografado. Representação desejada pelos pintores desde o início do renascimento, quando se iniciou uma intensa pesquisa de técnicas para melhor (de maneira mais fiel) reproduzir a realidade. Recursos que incluíam os estudos e a sistematização da perspectiva, a aplicação, na arte, de pesquisas sobre a anatomia humana, a arquitetura e a matemática, além da utilização da câmera escura, fator decisivo para o surgimento da fotografia na década de 1830. Desde então, a fotografia se desenvolveu rapidamente. E por tratar-se de uma forma fidelíssima de representação, desencadeou uma crise na pintura, que precisou repensar seus conceitos e sua função.


Não fazia mais sentido pintar quadros com o objetivo de representar a realidade se a câmera fotográfica fazia isso de maneira rápida e precisa. A partir desse momento, a pintura começou a se modificar e novos estilos e movimentos artísticos surgiram. O Impressionismo, que nasceu na França por volta de 1870, é um exemplo claro da influência da fotografia no curso da pintura. O Impressionismo buscava, não mais representar o real, mas fixar uma impressão visual causada por formas ou cenas da natureza e as sensações geradas pelas variações de luz e baseava-se, principalmente, na interação entre cores e contrastes para obter efeitos plasticamente dinâmicos. Assim, a pintura assumia uma nova função apresentando-se, como disse Giulio Carlo Argan no texto “A Fotografia”, como “poesia ou literatura figurada”. Função que pode ser observada também no Expressionismo que, através de formas e cores intensas, buscava captar e expressar sentimentos e sensações.

Distanciando-se cada vez mais da tentativa de reprodução da realidade, a arte continuou caminhando para uma abstração cada vez maior. Nasceu o cubismo com suas formas geométricas, recortes e decomposições de imagens, além da ausência de perspectiva para um rompimento ainda mais decisivo com a representação realista. Em pouco tempo chegava-se à arte abstrata estabelecendo-se uma pintura na qual importavam apenas as sensações e expressões artísticas obtidas através de cores e formas puras.

No entanto, é importante ressaltar que embora a fotografia tenha assumido a função de representação da realidade, não se restringiu a ela. A fotografia artística também desenvolveu elementos conotativos, alegóricos e expressivos. Sobre essa dupla possibilidade da fotografia, escreveu Roland Barthes: “O paradoxo fotográfico consistiria, então, na coexistência de duas mensagens: uma sem código (seria o análogo fotográfico) e a outra codificada (o que seria a ‘arte’ ou o tratamento ou a ‘escritura’, ou a retórica da fotografia)” 1


1 Do texto “A Mensagem Fotográfica”, de Roland Barthes, que apesar de focar a fotografia jornalística expõe as possibilidades de conotação da fotografia.