Tácita Taça
- Arte Ao Redor
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Tácita Taça
(Jorge Ricardo)
Uma taça de cristal dorme sobre uma mesa apodrecida. Uma, vinda do sopro, outra, do norte. Ambas tecem um fim. Num tremor súbito desperta a taça. A princípio, pende em devaneios, mas vai se ajustando, até que aceita o equilíbrio ao redor de seu eixo. Baila, e o movimento diminui até quase cessar. Nesse breve antes, paira solene sobre um único ponto, ínfimo, onde tudo é silêncio e solidão. Não existe público, não existe voz. E ainda assim, basta esse único ponto de contato para que se sinta real – estar cônscio de apenas um ponto, sim, isso é realidade.
Nessa vaga provisão, ronda o ambiente uma pequena borboleta amarela, admitida por meio da fresta de um azul. Linda. Vai em seu passeio aparentemente caótico, num abrir e fechar de asas, possuidora de tamanha delicadeza, quase tocando cada pedaço de tempo. Dentro desse fragmento fugidio, cabe também aventurar-se por debaixo da abóbada transparente. Bastaria um leve susto para que a prisão fosse eterna. O olhar do animal, que a contempla através do vitral da janela, se aguça. Mas ela continua, resoluta, e atravessa ao outro lado, viva.
A porta range um som desconfortável, o vento remexe as folhas secas e o ar volta a respirar. A taça, como o tempo, se move uma vez mais. Ainda sob o olhar, úmido, do animal que a espreita, a pequena borboleta amarela é capturada pelos grandes bicos da escuridão. Vão-se ambos, metamorfoseados numa mancha amarelo-escura, mistos de desespero e dor.
A taça parte da mesa e vai ao chão de pedra, frio, onde se despedaça. Moldada no sopro vivo e quente, retorna ao gélido. E aquele rugido cristalino de caos se apropria de tudo. O silêncio se esvai, apavorado. A mesa finalmente se rompe, tornando-se lápide derradeira. A poeira do tempo adornará esse momento, restando, em cada caco, a alma das memórias daquele breve instante: uma taça, tácita, pairando sobre o infinito.

Jorge Ricardo escreve ensaios como quem sustenta um estado de atenção. Textos do autor já integraram a coletânea Diamantes no Escuro: Melhores textos da Oficina de Vivian Schlesinger (2024).
