Quando o Sol era ela e a Lua era ele

Para quem fala português, há alguma coisa quase intuitiva em dizer o Sol e a Lua. Ao redor dessas duas palavras foi se formando uma imaginação inteira: o Sol tende a aparecer como força masculina, fogo, potência, princípio ativo; a Lua, como figura feminina, ligada aos ciclos, à fecundidade, à noite, às marés. A associação parece tão antiga que facilmente se confunde com a própria natureza. Basta, porém, atravessar uma fronteira linguística para que essa aparente evidência se desfaça.
Em alemão, Sol é die Sonne, feminino, enquanto Lua é der Mond, masculino. Não se trata apenas dos artigos. Quando personificados, eles podem carregar essa diferença consigo: o Sol pode ser ela; a Lua, ele. Para um falante de português, há um pequeno deslocamento nisso. Não chega a ser difícil de compreender, mas mexe com uma imagem que parecia assentada.
Uma professora de alemão certa vez me explicou essa inversão de maneira bonita. Segundo ela, haveria na língua uma associação do feminino com aquilo que é grande e gera vida. O Sol, fonte da luz que sustenta a vida, seria feminino; a Lua, que não produz a própria luz e depende do Sol para ser vista, seria masculina. É uma explicação sedutora, talvez até sedutora demais. Não há base linguística segura para afirmar que o gênero de Sonne e Mond tenha surgido dessa concepção. Gênero gramatical raramente obedece a uma lógica simbólica tão organizada. A explicação funciona melhor como uma leitura cultural posterior do que como etimologia. Isso não a torna desinteressante. Pelo contrário, ela diz bastante sobre nossa necessidade de encontrar sentido em coisas que a língua conservou muito antes de nossas explicações.
A inversão alemã vem de longe. As antigas línguas germânicas já tendiam a tratar o Sol como feminino e a Lua como masculino. O inglês antigo, falado aproximadamente entre os séculos V e XI, fazia algo que surpreenderia muitos falantes do inglês atual: sunne, Sol, era geralmente uma palavra feminina; mōna, Lua, era predominantemente masculina. Um dicionário histórico do inglês antigo registra sunne como feminino e conserva exemplos como sēo sunne, em que sēo é a forma feminina do determinante. Para mōna, encontramos se mōna, com a forma masculina. (Dicionário Anglossaxão Online)
O estranhamento aumenta quando chegamos aos pronomes. O inglês antigo possuía gênero gramatical e distinguia hē, masculino, hēo, feminino, e hit, neutro. Assim, em textos antigos, o Sol podia ser retomado por uma forma equivalente a ela. Há exemplos preservados em que sēo sunne aparece seguida de hēo. (Dicionário Anglossaxão Online) O inglês que hoje diz simplesmente the sun já disse, em outras palavras, algo muito próximo de “ela, o Sol”.
E não era apenas uma peculiaridade da gramática. Na tradição nórdica, encontramos Sól, divindade feminina associada ao Sol, e Máni, figura masculina associada à Lua. Aqui é preciso resistir à tentação de estabelecer uma causalidade fácil. Não sabemos simplesmente se a mitologia tornou as palavras femininas e masculinas ou se a língua ajudou a moldar as personificações mitológicas. Provavelmente estamos diante de camadas culturais muito antigas que se atravessam. A pergunta, nesse caso, pode ser mais interessante do que uma resposta definitiva.
Nas línguas latinas que nos são mais próximas, a distribuição seguiu outro caminho. Temos o Sol e a Lua, em português; el Sol e la Luna, em espanhol; le Soleil e la Lune, em francês; il Sole e la Luna, em italiano. O padrão masculino para o Sol e feminino para a Lua parece familiar a uma parte considerável da Europa românica, mas não é universal, nem mesmo dentro da Europa.
Quando aprendemos uma língua desde crianças, dificilmente sentimos o gênero das palavras como uma escolha. Uma mesa é feminina, um sofá é masculino, e ninguém precisa imaginar características psicológicas em nenhum deles. Ainda assim, quando uma palavra designa algo carregado de simbolismo, como Sol, Lua, morte, amor, guerra ou natureza, o gênero gramatical encontra um terreno muito mais fértil. Pintores personificam. Poetas escolhem corpos. Mitologias dão nomes e parentescos. Séculos depois, já não é fácil separar o que veio da gramática, o que veio do mito e o que um reforçou no outro.
O inglês oferece um caso especialmente curioso porque podemos observar uma parte dessa construção desaparecer. Durante a passagem do inglês antigo para o inglês médio, o sistema de gênero gramatical foi se desfazendo. As antigas formas se, sēo e þæt, que distinguiam gêneros no nominativo singular, deram lugar progressivamente ao artigo invariável the. O inglês moderno já não precisa saber se sun pertence ao feminino ou se moon pertence ao masculino. Para objetos e astros, normalmente usa it. Aquela antiga distinção deixou de ser necessária para falar, mas as palavras permaneceram. Por isso, é tão estranho descobrir que o Sol já foi “ela” em inglês. Não porque haja algo essencialmente feminino no Sol, tampouco essencialmente masculino. O estranhamento vem de perceber que aquilo que parecia evidente dependia, em parte, da língua através da qual aprendemos a olhar.
Se tivéssemos nascido falando alemão, die Sonne não nos causaria espanto algum. Uma criança alemã não precisa elaborar uma teoria sobre geração da vida para aceitar que Sonne é feminino, assim como uma criança brasileira não precisa explicar por que Lua é feminino. Aprende-se primeiro. Os sentidos vêm depois.
A explicação daquela professora de alemão continua interessante justamente por apresentar, não necessariamente a história da palavra, mas a história que contamos para a palavra. O Sol produz a luz; a Lua a recebe e a devolve. Dessa relação física, alguém construiu uma leitura sobre feminino e masculino capaz de parecer perfeitamente natural. Em outra língua, construímos outra. A gramática não determina sozinha aquilo que imaginamos. Seria excessivo atribuir-lhe tamanho poder. Mas ela também não passa intacta pela imaginação. Há palavras que carregamos durante tanto tempo que suas categorias começam a parecer propriedades do próprio mundo. O Sol não sabe que, em português, é masculino. A Lua tampouco sabe que é feminina.
Acompanhe nossos podcasts no Spotify.
Inscreva-se em nosso blog para receber outras publicações sobre arte e cultura.
Conheça nosso livro
Lançado em 2024, o livro "Arte em debate: reflexões contemporâneas", da autora Luiza Pessôa, artista, graduada em História e pós-graduada em História da Arte, reúne artigos revisados e ampliados do blog Ao Redor Cultura e Arte que abordam temas relacionados à arte, além de textos inéditos da autora.





Comentários