Ou Isso Ou Iço?
- Arte Ao Redor

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Ou Isso Ou Iço?
(Jorge Ricardo)
Se não se avançar sobre o Isso, nunca se terá o Iço. A vida só se ergue do chão quando aceita o peso do que há, ou do que haver-á. Não há vela sem o casco. Não há Iço sem o Isso.
Tudo, afinal, se dá no Assim. Trepadeiras, como lagartixas verdes, se lançam às paredes, sempre trazendo consigo a memória da raiz. Trepadeira não sobe de mergulho, insiste. Cada folha carrega um traço do subterrâneo — uma saudade do escuro.
O mesmo gesto se repete no cão com a sua bola amarela cravada na boca, não a-larga. Carrega o troço com um prazer tenso, um desejo de posse exaustiva. O jogo não é pelo arremesso, mas pelo entre. O entre-ter e o soltar. Entre-brincar e o a-guardar, o entre-tempo. A boca é limi-t-ar. E ali, naquele instante anterior à entrega, habita o êxtase perdido — aquele que o tempo desfaz antes de o nomearmos.
Porque o tempo, até mesmo o tempo, talvez, talvez, não seja outra coisa senão Iço. Um puxar constante de um fio invisível. Içamos as horas, içamos os dias, içamos os nomes, içamos até mesmo a gramática. E tudo arranha o caos. E mesmo assim, içamos. Somos criaturas que se erguem, mesmo quando tudo puxa para baixo. E no gesto de içar, já nascemos feridos.
A vida fere. E o a-r-mar leva.
O a-r-mar sempre leva. Leva os corpos, os restos, os silêncios. Já levou a morta estendida — e os olhos que a seguiram, talvez em busca do Iço, ou, talvez, talvez, do Isso. Há olhos que se perdem não por cegueira, mas por excesso de luz. Enxergaram o que não se pode reter. E mesmo dentro desse Assim quem pode confirmar?
Então voltamos: se não se avançar sobre o Isso, concreto, nunca se terá o Iço, ímpeto. O Isso é o chão, o cão, a raiz, a memória. O Iço é o a-mar, o voo da bola amarela, o impulso, o erro, sim, o erro! E no entre-os-dois, há uma corda. Uma linha tênue que percorremos todos os dias sem saber. E é nessa corda que a vida se equilibra — ou desaba, porque o dia clareia no escuro e escurece no claro.

Jorge Ricardo escreve ensaios como quem sustenta um estado de atenção. Textos do autor já integraram a coletânea Diamantes no Escuro: Melhores textos da Oficina de Vivian Schlesinger (2024).




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