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Os Ombros Suportam o Mundo, de Carlos Drummond de Andrade

Foto do escritor: Arte Ao Redor
Arte Ao Redor
há 1 hora
2 min de leitura

Retrato em preto e branco de Carlos Drummond de Andrade, usando óculos de armação escura, paletó claro e gravata estampada. O poeta aparece sentado, com o rosto ligeiramente voltado para a esquerda e o olhar distante, em um ambiente interno.

No próximo dia 31 de outubro, Carlos Drummond de Andrade (1902–1987) completaria 124 anos. Publicado em Sentimento do Mundo (1940), “Os Ombros Suportam o Mundo” foi escrito em uma época marcada pela ascensão do fascismo e pela ameaça de uma guerra que logo se tornaria mundial. O poema retrata o esgotamento de um homem que já não encontra consolo no amor, na fé ou nas amizades, mas que também não se permite desistir. Drummond reconhece a dureza de um mundo atravessado pela violência e pelo sofrimento, sem recorrer a qualquer promessa de redenção. A vida continua, independentemente das nossas desilusões, e é preciso sustentá-la.


Os Ombros Suportam o Mundo

(Carlos Drummond de Andrade)


Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.

Tempo de absoluta depuração.

Tempo em que não se diz mais: meu amor.

Porque o amor resultou inútil.

E os olhos não choram.

E as mãos tecem apenas o rude trabalho.

E o coração está seco.


Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.

Ficaste sozinho, a luz apagou-se,

mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.

És todo certeza, já não sabes sofrer.

E nada esperas de teus amigos.


Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?

Teus ombros suportam o mundo

e ele não pesa mais que a mão de uma criança.

As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios

provam apenas que a vida prossegue

e nem todos se libertaram ainda.

Alguns, achando bárbaro o espetáculo

prefeririam (os delicados) morrer.

Chegou um tempo em que não adianta morrer.

Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.

A vida apenas, sem mistificação.

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