O peso do CEP: por que tantos artistas se reconhecem na esquerda?

A rachadura no espelho do salão de ensaio e o ruído do ônibus que invade a execução musical denunciam uma realidade material inescapável. Embora existam infraestruturas ideais, a precariedade é a norma para quem faz arte no Brasil, o que torna a distribuição das condições de produção tão desigual quanto a própria renda. Essa assimetria estrutural oferece um caminho mais profícuo para compreender a histórica afinidade entre a classe artística e o pensamento de esquerda, superando leituras que reduzem o fenômeno a mero capricho estético.
A vocação artística não carrega em si um determinismo ideológico, e a história registra criadores em todo o espectro político. Contudo, a materialidade da vida impõe filtros rigorosos. O CEP onde um indivíduo nasce atua como um divisor de águas muito mais decisivo do que o talento inato. Duas crianças podem possuir a mesma aptidão musical, mas aquela inserida em um ambiente com acesso a instrumentos, silêncio e orientação pedagógica partirá de um pressuposto estruturalmente distinto daquela que precisa, antes de tudo, descobrir a existência de uma escola de música. Reduzir a trajetória artística ao mérito individual ignora que o esforço, por si só, não transpõe abismos socioeconômicos.
É a partir dessa constatação que se desenha a fronteira conceitual entre esquerda e direita. A tradição progressista opera sob a desconfiança de que as disparidades sociais são produzidas por mecanismos de herança, propriedade e acesso a serviços, exigindo intervenção sobre o meio. Em contrapartida, a direita liberal tende a depositar sua confiança na autonomia do indivíduo e na regulação do mercado, naturalizando as exclusões que esse sistema produz.
Essa divergência não isenta a esquerda de seus próprios autoritarismos históricos, nem a torna imune a episódios de censura e dogmatismo. A defesa da liberdade de criação exige o reconhecimento de que a opressão não muda de signo conforme a ideologia que a executa. No entanto, ao observarmos as grandes inflexões civilizatórias, nota-se que conquistas hoje consideradas basilares — como a abolição da escravidão ou o sufrágio feminino — foram sistematicamente combatidas em nome da ordem, da estabilidade e da suposta natureza das coisas. O que uma geração classifica como ameaça à civilização frequentemente se converte, décadas depois, em seu princípio fundamental. O progressismo, nesse sentido, atua justamente na identificação daqueles que ainda estão excluídos do rol de direitos que a maioria já toma como naturais.
A intersecção entre cultura e desigualdade encontra ressonância no pensamento de intelectuais como Paulo Freire, Darcy Ribeiro e Antonio Candido, para quem a educação e a literatura não se limitam à transferência de informações ou ao entretenimento, mas constituem dimensões inalienáveis da experiência humana e do direito à cidade. Uma sociedade que subordina inteiramente a produção cultural à lógica de mercado comete o equívoco de medir o valor simbólico e histórico exclusivamente pela sua rentabilidade financeira. Se o mercado é eficiente para circular obras e remunerar profissionais, ele é cego para a preservação de patrimônio, para a manutenção de orquestras sinfônicas ou para a existência de bibliotecas de periferia, cuja relevância não se traduz em balancetes positivos.
Além da dimensão econômica, o ofício artístico carrega uma exigência fenomenológica: a necessidade constante de habitar o outro. A representação obriga o criador a confrontar realidades alheias, percebendo que a humanidade não se esgota em sua própria experiência imediata. Essa exposição à alteridade dificulta a aceitação passiva de desigualdades, embora não anule as contradições e os preconceitos inerentes ao meio.
Compreende-se, portanto, que a adesão de artistas a pautas conservadoras ou de extrema-direita não decorra de falta de sensibilidade, mas de outros vetores de socialização. Interesses patrimoniais, convicções religiosas, inserção em cadeias produtivas como o agronegócio ou a simples priorização da segurança em detrimento da igualdade são motivações legítimas no espectro democrático. O problema se instaura quando o conservadorismo degenera em autoritarismo, passando a tratar a pluralidade como ameaça e a cultura como um campo de suspeição a ser vigiado. A criação artística exige, por definição, o direito ao incômodo, à sátira e à experimentação, condições que sufocam sob regimes que demandam conformidade estética ou moral.
Recusar a falsa equivalência entre projetos políticos antagônicos não significa abdicar do senso crítico em relação aos governos de esquerda, cujas contradições e falhas devem ser escrutinadas com o mesmo rigor aplicado a qualquer gestão. Significa, antes de tudo, reconhecer que políticas públicas assimétricas produzem países assimétricos. Tratar a desigualdade como fatalidade ou como um problema a ser mitigado gera consequências civis profundamente distintas.
Retornando ao salão de ensaio, o destino do jovem músico que termina sua peça sob o ruído do trânsito não será definido apenas por sua disciplina ou talento. Ele será moldado, de maneira determinante, pela qualidade da escola que frequentou, pela infraestrutura de seu bairro e pela existência de políticas públicas que garantam a continuidade daquele espaço. O mérito só pode ser aferido depois que a igualdade de ponto de partida for assegurada; antes disso, o que existe é o CEP.
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