• Angelo Tribuzy

O MUSEU DE MÚSICA

Música e cultura musical: uma abordagem questionadora da nossa forma de ouvir música.


A História determina quais obras de arte ficarão para o futuro ou serão esquecidas. Aquele que inovar, influenciar outros artistas ou modificar o modo de pensar sobre o mundo ou senti-lo, será lembrado por séculos e séculos. Ao compor uma música, o compositor se expressa através de sua arte. Tudo o que ele ouve, o que estudou, o que gosta (ou não), o que ele vive emocionalmente, o que pensa sobre as coisas, onde vive... tudo influencia em sua composição.


As mesmas influências externas que afetam diretamente o artista, enquanto indivíduo, incidem também nas obras, como nas artes plásticas ou arquitetônicas em que o objeto de arte ainda pode ser contemplado no seu lugar de origem, onde tem um grande valor junto ao seu ambiente, pois, muitas vezes, o artista concebe sua obra correlacionada com o espaço a sua volta e, não raro, esta criação origina-se de uma visualização ou impressão do artista daquele ambiente em que está imerso.


Num museu encontram-se várias obras artísticas de diversas épocas, onde o visitante que as admira muitas vezes diz ter a sensação de se transportar para o lugar de origem do objeto de arte. Para que se entenda melhor uma obra, há um guia ou placas explicando e contextualizando o objeto exposto.


Como seria ver daqui a uns 400 anos o Cristo Redentor num museu estrangeiro? Dezenas de pessoas em torno dele e o Cristo, com os braços abertos, sem ver o Rio à sua frente, mas uma enorme sala. Será que as pessoas daquela época se transportariam para o Rio de Janeiro? Teriam a mesma impressão que nós, hoje, olhando para ele em cima do Corcovado? E, como seriam os olhos dessas pessoas acostumadas às diferentes artes daquele século?


Na música, esta questão espaço-arte é um pouco diferente, mas também ocorre, uma vez que o compositor é influenciado pela cultura do local em que vive. Um ouvinte de outra cultura não perceberia, através de sua música, certos detalhes que somente vivendo sua cultura local poder-se-ia entender.


Outro processo ocorre na música, e também na dança: a necessidade de um executante para que a obra seja experimentada. Uma obra musical composta em um determinado país pode ser executada em outros locais e épocas, sem que os executantes tenham estado em seu local de origem e, até mesmo, sem que conheçam a cultura do compositor.


No século XX criou-se um museu muito diferente relacionado à música. Este museu varia de país para país, de estado para estado, de cidade para cidade e até de casa para casa! Este museu é composto por gravações, uma forma de se registrar o som, que se iniciou com os gramofones, passando pelos discos, CDs e chegando ao arquivo digital nas plataformas de streaming. Sem sair de casa, é possível escutar uma gravação feita há décadas. Simplesmente, num clique, pode-se ouvir quantas vezes quiser, sua música ou seu gênero musical preferido. Na estante de sua sala ou quarto, ou em sua playlist no seu computador ou smartphone, o ouvinte pode encontrar as peças ou intérpretes de sua preferência.


Se quisermos ouvir As Quatros Estações, de Vivaldi, composta em 1723, podemos fazê-lo facilmente, mas, é claro, que o ouvido de hoje não é mais o mesmo daquela época e nem a cultura. Os instrumentos e os executantes daquele tempo também não. Como seria ouvir essa obra no século XVIII?

E, enquanto, ouvimos as peças de nosso acervo musical, há compositores criando novas músicas, muitas vezes completamente estranhas às desse repertório que possuímos. Esse nosso acervo poderia ser muito mais bem aproveitado se ele fosse chamado de, ou definido como, um Museu de Música. Pois seu dono, cada um de nós, iria escutar, estudar, pesquisar e adquirir diferentes formas de expressão musical, mesmo que, se por motivo da época ou da cultura, não soasse igualmente ao original. Ele não se limitaria a ouvir somente o que é oferecido a ele. Iria à caça de novas peças para o seu museu pessoal. Poderia fazer um diálogo entre vários compositores e entender as mais diversas formas musicais existentes hoje, eruditas ou não. Talvez descobrisse que não houve uma evolução na música, mas uma transformação e diferentes formas de expressá-la. E, então, perceber e entender melhor esta forma de comunicação universal que sempre esteve e estará presente em nossa humanidade.


INSCREVA-SE para acompanhar novas publicações!