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O Lugar da Ópera no Século XXI

  • Foto do escritor: Ao Redor - Cultura e Arte
    Ao Redor - Cultura e Arte
  • há 3 horas
  • 3 min de leitura
A ópera não é sobrevivência do passado. É um gesto de resistência sensível em plena era da dispersão digital.

A ópera como anacronismo necessário


No mundo dos vídeos curtos, dos fones que isolam e da velocidade que não perdoa, a ópera surge como um corpo estranho — grande demais, intensa demais e lenta demais para caber no molde do consumo rápido. É, paradoxalmente, essa inadequação que a preserva. Enquanto tudo parece correr para se esvaziar, a ópera insiste na pausa; enquanto a cultura se fragmenta, ela reivindica profundidade; enquanto a leveza vira norma, ela oferece densidade. É uma forma de arte que solicita presença — não a presença dispersa das telas, mas aquela que convoca o corpo inteiro, a memória e a sensibilidade. Em pleno século XXI, isso se torna quase um ato de resistência.


A obra total que nos atravessa


Muito antes de Wagner teorizar a Gesamtkunstwerk, a ópera já intuía que nenhuma linguagem, sozinha, seria suficiente para dar conta da complexidade humana. Ela é, desde suas origens, uma síntese radical: música, poesia, teatro, corpo, luz e gesto coexistem em um mesmo território afetivo. No palco, essas forças não apenas se somam; elas se amplificam mutuamente.


A ausência de microfone, longe de parecer um capricho tradicionalista, revela um posicionamento estético. A voz lírica expõe vulnerabilidade e risco — e é nesse risco que se ancora parte do fascínio do gênero. Quando uma voz humana se projeta contra uma orquestra inteira, produz-se uma verdade física e emocional que escapa a qualquer mediação eletrônica. A respiração da sala, a tensão antes de um ataque, a vibração do ar entre a plateia e o palco — tudo isso compõe a experiência.


A lentidão própria da ópera, muitas vezes criticada por quem se acostumou ao ritmo frenético da rolagem infinita, opera como método. Esse tempo expandido permite que as emoções amadureçam, que as tensões se decantem, que o espectador reencontre a possibilidade de sentir com demora. A ópera, nesse sentido, não é antiga: é radicalmente contemporânea, porque devolve ao público algo que a época perdeu — a capacidade de atenção profunda.


Entre a tradição e a reinvenção


A ópera não se mantém por conservar intacto um passado idealizado; ela permanece porque dialoga com o presente. Esse diálogo, por vezes, é feito com delicadeza; em outros momentos, com fricção. Mas é sempre vivo.


Revisitar Carmen, La Traviata, Don Giovanni ou Wozzeck é reencontrar dilemas que continuam nos atravessando: desejo, violência, desigualdade, abandono, queda moral. Essas obras sobrevivem porque falam de feridas que ainda não cicatrizaram.

As montagens contemporâneas — especialmente as que seguem a estética do Regietheater — deslocam narrativas para escritórios, fábricas abandonadas, hospitais, periferias urbanas. Essas escolhas, às vezes polêmicas, revelam a força estrutural da música, que sustenta reinterpretações sem se desintegrar. Mesmo quando desconfortáveis, elas mantêm o gênero em circulação, como uma tradição que não teme o atrito.


E, num mundo saturado de conteúdo digital, a ópera reivindica o valor do irrepetível. Nada substitui o instante em que a orquestra respira junto ao solista, ou o risco que antecede um agudo. A ópera é um acontecimento — depende da presença de corpos reunidos, não de arquivos. Em tempos de reprodução infinita, essa singularidade se torna ainda mais preciosa.


A permanência da ópera no século XXI revela uma fome de experiências mais densas, menos descartáveis. Ela reintroduz profundidade em uma época que privilegia a superfície, devolve maturação a um tempo que celebra o efêmero e reinstala o ritual da presença num cotidiano regido pela distração contínua. A ópera nos devolve corpo, silêncio, tensão emocional e uma forma particular de catarse que nenhuma tecnologia consegue reproduzir.


A ópera não persiste por nostalgia, mas porque continua sendo um dos poucos lugares onde o humano acontece em estado ampliado. Seu poder não reside no luxo ou no culto ao passado, mas na coragem de lidar com a intensidade — algo que o século XXI frequentemente terceiriza para o entretenimento rápido. A ópera continua porque ainda precisamos dela, e porque há perguntas que só uma voz humana, enfrentando uma orquestra inteira, pode formular. Ela é mais do que espetáculo: é um território onde a intensidade encontra abrigo, mesmo em tempos de ruído.


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