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“Fuga” - Graciliano Ramos, Vidas Secas

Foto do escritor: Arte Ao Redor
Arte Ao Redor
há 2 horas
2 min de leitura

Graciliano Ramos: um sonho em Vidas Secas | Arte ao Redor

Em 27 de outubro, completam-se 134 anos do nascimento de Graciliano Ramos. Para lembrar o escritor, escolhemos um trecho de “Fuga”, último capítulo de Vidas Secas. No sertão retratado por Graciliano, a seca se somava à concentração de terras e à exploração dos trabalhadores, obrigando muitas famílias a partir. É nesse caminho que Fabiano e Sinha Vitória imaginam os filhos na escola, vivendo de um jeito diferente do deles, embora nenhum dos dois saiba bem o que encontrarão ao chegarem à cidade.



"Pouco a pouco uma vida nova, ainda confusa, se foi esboçando. Acomodar-se-iam num sítio pequeno, o que parecia difícil a Fabiano, criado solto no mato. Cultivariam um pedaço de terra. Mudar-se-iam depois para uma cidade, e os meninos frequentariam escolas, seriam diferentes deles. Sinha Vitória esquentava-se. Fabiano ria, tinha desejo de esfregar as mãos agarradas à boca do saco e à coronha da espingarda de pederneira.


Não sentia a espingarda, o saco, as pedras miúdas que lhe entravam nas alpercatas, o cheiro de carniças que empestavam o caminho. As palavras de Sinha Vitória encantavam-no. Iriam para diante, alcançariam uma terra desconhecida. Fabiano estava contente e acreditava nessa terra, porque não sabia como ela era nem onde era. Repetia docilmente as palavras de Sinha Vitória, as palavras que Sinha Vitória murmurava porque tinha confiança nele. E andavam para o sul, metidos naquele sonho. Uma cidade grande, cheia de pessoas fortes. Os meninos em escolas, aprendendo coisas difíceis e necessárias. Eles dois velhinhos, acabando-se como uns cachorros, inúteis, acabando-se como Baleia. Que iriam fazer? Retardaram-se, temerosos. Chegariam a uma terra desconhecida e civilizada, ficariam presos nela. E o sertão continuaria a mandar gente para lá. O sertão mandaria para a cidade homens fortes, brutos, como Fabiano, Sinha Vitória e os dois meninos."


— Graciliano Ramos, Vidas Secas, capítulo XIII — “Fuga”.

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