Carnaval, Interioridade e Tempo Histórico: Manuel Bandeira em 1919
- Ao Redor - Cultura e Arte

- há 2 horas
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Publicamos a seguir o poema “Sonho de uma terça-feira gorda”, de Manuel Bandeira, integrante do livro Carnaval, publicado em 1919. À época de seu lançamento, o Brasil e o mundo ainda atravessavam os efeitos devastadores da pandemia de gripe espanhola (1918–1919), que ceifara milhões de vidas e deixara marcas profundas no tecido social.
É nesse contexto histórico — entre luto coletivo e desejo de retomada da vida pública — que o livro surge. O título Carnaval evoca a festa popular por excelência, mas, em Bandeira, a celebração nunca é mera exterioridade. Há sempre uma tensão entre máscara e essência, ruído e recolhimento, espetáculo e verdade íntima. No poema que apresentamos, a terça-feira gorda não é apenas o ápice da folia: é cenário simbólico para uma reflexão sobre a origem da alegria e sua possível autonomia diante do tumulto histórico.
Se o tempo era de fragilidade e perda, a poesia responde com uma aposta na interioridade. A alegria descrita por Bandeira não se confunde com euforia coletiva; ela é profunda e silenciosa, quase ascética. Em meio à multidão, afirma-se uma luz interior que resiste às circunstâncias — como se o poeta sugerisse que, mesmo quando o mundo vacila, ainda resta ao sujeito a possibilidade de cultivar um núcleo luminoso.
SONHO DE UMA TERÇA-FEIRA GORDA
Eu estava contigo. Os nossos dominós eram negros, e negras eram as nossas máscaras.
Íamos, por entre a turba, com solenidade,
Bem conscientes do nosso ar lúgubre
Tão contrastado pelo sentimento de felicidade
Que nos penetrava. Um lento, suave júbilo
Que nos penetrava… Que nos penetrava como uma espada de fogo…
Como a espada de fogo que apunhalava as santas extáticas!
E a impressão em meu sonho era que se estávamos
Assim de negro, assim por fora inteiramente de negro,
— Dentro de nós, ao contrário, era tudo claro e luminoso!
Era terça-feira gorda. A multidão inumerável
Burburinhava. Entre clangores e fanfarra
Passavam préstitos apoteóticos.
Eram alegorias ingênuas ao gosto popular, em cores cruas.
Iam em cima, empoleiradas, mulheres de má vida,
De peitos enormes — Vênus para caixeiros.
Figuravam deusas — deusa disto, deusa daquilo, já tontas e seminuas.
A turba, ávida de promiscuidade,
Acotovelava-se com algazarra,
Aclamava-se com alarido
E, aqui e ali, virgens atiravam-lhes flores.
Nós caminhávamos de mãos dadas, com solenidade,
O ar lúgubre, negros, negros…
Mas dentro em nós era tudo claro e luminoso!
Nem a alegria estava ali, fora de nós.
A alegria estava em nós.
Era dentro de nós que estava a alegria,
— A profunda, a silenciosa alegria…
Ao reler este poema hoje, compreendemos que o Carnaval, em Bandeira, é menos um evento do calendário do que uma metáfora da condição humana: entre máscaras e revelações, somos chamados a discernir onde, de fato, habita nossa alegria.
Desejamos a nossos leitores um Carnaval consciente e pleno que una a celebração coletiva à escuta sensível do que pulsa, luminosamente, por dentro.
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