Ausência, de Guimarães Rosa
- Arte Ao Redor
- há 3 dias
- 1 min de leitura
Na semana em que lembramos o nascimento de João Guimarães Rosa, vale visitar também o poeta que habitava o grande inventor de palavras. Mais conhecido pela força narrativa de sua prosa, Rosa soube fazer da linguagem um território de assombro, delicadeza e revelação — como se cada palavra carregasse uma fresta secreta para o invisível.
Em “Ausência”, a partida de alguém amado não esvazia apenas o quarto: transforma os objetos em testemunhas silenciosas. As sandálias, o leito desfeito, o beija-flor, o perfume das violetas — tudo parece guardar a presença de quem já saiu. O poema constrói uma saudade quase física, feita de luz, cheiro, tecido e memória. É a ausência, mas ainda morna. A pessoa se foi; o mundo, teimoso como só ele, continua cheio dela.
Ausência
(João Guimarães Rosa)
Na almofada branca,
as sandálias sonham
com a seda dos teus pés...
Partiste...
Mas a alegria ainda ficou no quarto,
talvez no ninho morno, calcado por teu corpo
no leito desfeito...
Entardece...
Esfuziante e verde,
um beija-flor entrou pela janela,
(pensei que a tua boca ainda estivesse aqui...)
Do frasco aberto,
vestidas de vespas,
voam violetas...
E na almofada de seda,
beijo as sandálias brancas,
vazias dos teus pés.
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