18 de abril, o Dia Nacional do Livro Infantil e o imaginário da infância
- Arte Ao Redor
- há 1 dia
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O 18 de abril, celebrado no Brasil como o Dia Nacional do Livro Infantil em homenagem ao nascimento de Monteiro Lobato, convida menos a uma celebração protocolar e mais a uma pergunta que não é tão confortável: que tipo de infância o livro ainda é capaz de sustentar? Quando levada a sério, a data desloca o foco do objeto, o livro em si, para aquilo que ele ativa: o imaginário. E esse imaginário, longe de ser fixo, se transforma conforme mudam as condições de experiência no mundo. Para compreender esse deslocamento, vale observar de onde partimos.
O mundo como matéria de invenção
A infância no tempo de Lobato não era homogênea nem idealizada, mas mantinha uma relação mais direta com o mundo concreto. O cotidiano (o quintal, os objetos ao redor, as histórias transmitidas oralmente) não vinha organizado como narrativa pronta. Havia ali um material disperso, que precisava ser transformado, mesmo que de forma intuitiva. É desse contexto que surge o Sítio do Picapau Amarelo. O que Lobato faz não é criar um universo totalmente apartado da realidade, mas reorganizar elementos já existentes, permitindo que o extraordinário atravesse o ordinário sem ruptura. O saci, a boneca que fala, a avó que narra histórias aparecem com uma naturalidade que dispensa explicações. A imaginação se apresenta como um processo de elaboração. Esse modo de construção depende de uma condição específica: a presença de lacunas. Aquilo que não está inteiramente definido exige participação. A criança não apenas acompanha a história, mas a completa, ainda que sem perceber.
Na poesia de Cecília Meireles, esse princípio assume outra forma. A linguagem não se impõe de maneira direta; ela sugere, abre intervalos, convida o leitor a ocupar os espaços entre as palavras, intervalo onde o sentido se forma.
Com o passar do tempo, a literatura infantil brasileira desloca gradualmente seu foco. Em obras de Lygia Bojunga, a infância já não se define apenas pela relação com o mundo externo, mas pela maneira como esse mundo é processado internamente. A imaginação continua presente, mas passa a responder também ao que não encontra resolução imediata. Esse movimento não elimina o lúdico, mas o torna mais denso. A fantasia deixa de funcionar apenas como cenário para operar como linguagem para conflitos que não se deixam dizer de forma direta. Ao lado dela, autoras como Ana Maria Machado e Ruth Rocha ampliam o alcance do livro infantil ao incorporar temas ligados à convivência, ao poder e à linguagem, sem que isso resulte em um tom excessivamente didático.
O livros infantis, ganham ainda mais uma dimensão de elaboração crítica. Ainda assim, preserva um traço fundamental: a necessidade de um leitor ativo, que não apenas recebe a narrativa, mas participa de sua construção.
A infância sob o regime da imagem
A infância contemporânea se desenvolve em um ambiente muito distinto. O volume de estímulos cresceu e a forma como esses estímulos chegam também mudou. Narrativas visuais se apresentam prontas, com ritmo definido, imagens detalhadas e pouca margem para indeterminação.
Nesse contexto, o imaginário tende a se organizar de outra maneira, não porque a criança tenha perdido a capacidade de imaginar, mas porque as condições de exercício dessa capacidade foram alteradas. Quando a imagem já está resolvida, a necessidade de construí-la diminui. Autores contemporâneos como Roger Mello e Eva Furnari parecem responder a esse cenário sem tentar competir com ele. Em muitos de seus trabalhos, o livro propõe um outro ritmo de experiência, construído na relação entre texto, imagem e silêncio, preservando zonas de abertura que convidam o leitor a permanecer.
Comparar essas diferentes formas de infância não leva necessariamente a um julgamento simples. O acesso ampliado à informação e à diversidade de referências trouxe ganhos evidentes. Ao mesmo tempo, há perdas mais difíceis de medir, relacionadas ao espaço de elaboração simbólica que transformam não apenas o modo de ler, mas de perceber o mundo.
Se antes o imaginário se alimentava de um mundo que exigia interpretação, hoje ele convive com um fluxo contínuo de imagens que tende a reduzir essa exigência.
É nesse ponto que o livro infantil ainda se distingue. Ele não elimina a imagem, mas a submete a um ritmo que permite pausa, retorno e dúvida. Ao fazer isso, preserva algo que independe da época: a possibilidade de que a criança não apenas receba o mundo, mas participe da sua construção.
O sentido da data
O 18 de abril não se esgota na lembrança de um autor ou na valorização de um gênero. Ele aponta para uma questão mais ampla, que atravessa diferentes momentos históricos: de que maneira a infância pode continuar sendo um espaço de invenção?
Se não há uma resposta única, talvez ela passe por um gesto simples, ainda que cada vez mais raro: garantir que o encontro com o livro não seja apenas mais um estímulo entre tantos outros, mas uma experiência distinta, em que o tempo se alarga e o sentido não se apresenta completamente pronto. E é aí que a infância encontra uma de suas formas mais persistentes de liberdade.
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