• Angelo Tribuzy

"Refusés", O impressionismo e Cézanne

Em abril de 1874, um grupo de trinta jovens artistas franceses sob o título de "Sociedade Anônima dos Artistas, Pintores, Escultores, Gravadores e etc." realizou uma exposição em Paris. Esse salão chamou-se também o "Salão dos Recusados". Suas obras eram rejeitadas para os salões oficiais por não seguirem os padrões artísticos estabelecidos pelas Academias. Entre os artistas do grupo estavam: Renoir, Degas, Pissarro e Cézanne. O grupo recebeu do crítico Louis Leroy, do jornal "Le Charivari", o depreciativo nome de "Impressionistas".


A proposta dos “impressionistas” era que, se confiássemos mais em nossos olhos do que em ideias pré-concebidas de como as coisas se parecem, faríamos incríveis descobertas.

Eram artistas que acreditavam que as artes tradicionais não representavam a natureza tal como a vemos e sim, submetiam-na a condições muito artificiais, utilizando e aplicando a tudo que representavam, uma interação entre luz e sombra, que dentro de um estúdio dava a impressão de volume e solidez. Esquecia-se, segundo eles, que ao ar livre, as gradações do escuro e do claro possuem violentos contrastes. Na luz plena do sol, os objetos não são tão redondos ou modelados. Parecem mais planos, pois as partes iluminadas ficam bem mais brilhantes; as sombras não são exatamente negras ou cinzentas, pois a luz que reflete dos objetos ao redor interfere na intensidade das sombras.


A proposta dos “impressionistas” era que, se confiássemos mais em nossos olhos do que em ideias pré-concebidas de como as coisas se parecem, faríamos incríveis descobertas. Se o mundo fosse representado simplesmente como o vemos e não como o conhecemos (numa visão de superfície, imediata e enganadora) a solidez poderia se dissolver em um enorme prisma de cores. Monet, por exemplo, desejava pintar o que ele imaginava que um cego veria se recuperasse repentinamente a visão.

A representação impressionista, paradoxalmente, era descritiva e não literal, num pictórico, como assim disse Wölfflin, que confundia o espectador e irritava o crítico. Uma justificativa às formas não lineares da pintura impressionista está nas seguintes palavras de Gauguin:

"se você vê uma árvore azul, pinte-a azul quanto possível. Um quilômetro de verde é mais verde do que meio quilômetro. Por que não exagerar na pintura, do mesmo modo que os poetas empregam metáforas? Curve mais um ombro, se isso torna o corpo mais bonito. Faça-os mais brancos, se assim ficar melhor. Mova os galhos das árvores, ainda que não sopre o vento".

Não havia padrões ou regras que substituíssem as práticas convencionais. Cada artista elaborava as próprias opções às últimas consequências: o uso vívido da cor, a liberação do processo do pintor, a contestação da ideia do acabamento e a consequente possibilidade de se utilizar um esboço mesmo como uma obra terminada.


Como se as críticas à primeira onda do Impressionismo durante a década de 1880 (acusações de trabalhos feitos às pressas ou de pinturas sem substância) tivessem causado efeito, pintores como Monet já não se satisfaziam mais com a ideia de impressão rápida ao ar livre. Surgiam propostas como a de Pissarro, por exemplo (não contraditórias ao Impressionismo), de que as impressões previamente colhidas pelo pintor só poderiam ser coordenadas e transformadas num trabalho de arte dentro de um estúdio.


Quase numa dissolução daquele "Impressionismo primitivo", que acompanhou a mentalidade dos jovens pintores "réfusés" (recusados pelas Academias), numa busca contra o já saturado "plain air", pintores como Cézanne, Gauguin e Van Gogh partiram para uma nova linha de pesquisa.


Cézanne foi o único, entre eles, que conseguiu, ainda em vida, ser reconhecido como um mestre. Com a sua capacidade de tratar as obras numa perspectiva global, e com a sua eterna insatisfação, Cézanne levou a fundo as suas pesquisas sobre as cores, planos, perspectiva, formas e sombras. Uma vez escreveu ao pintor Émile Bernard: "A linha principal a seguir é jogar na tela exatamente o que vê. Nunca se preocupe com seu temperamento ou habilidade a respeito da natureza[...] Aqueles contornos em preto estão completamente errados. A resposta está em consultar-se a Natureza; é aí que encontramos os meios".

Cézanne


Paul Cézanne nasceu no ano de 1839, em Aix-en-Provence, França. Seu pai, um bem sucedido homem de negócios desejava-lhe a carreira de advogado, mas concordou em deixá-lo estudar pintura. Em 1861, Cézanne entrou para a Academia Suíça e em 1862 ligou-se a Pissarro. Por volta de 1872, pintou "A Casa do Enforcado", uma das duas obras que participaram da primeira exposição dos impressionistas e que foi vendida a Victor Chocquet (seu primeiro colecionador).


Após expor novamente com os impressionistas em 1877, isolou-se por completo em sua cidade natal, especialmente após a morte de seu pai em 1886. Foi exatamente naquela época que seu temperamento retraído se manifestou com mais intensidade. Não conseguiu mais conviver com seus amigos impressionistas devido ao seu método de trabalho, vagaroso e torturante, que se contrapunha ao método ágil e alegre daqueles. Seu amigo de infância, Émile Zola, dizia que, embora tivesse o talento de um grande pintor, "ele jamais teria gênio para se tornar tal. O mínimo obstáculo o deixa desesperado".


Assim, mesmo recebendo uma herança do pai de quase dois milhões de francos (que dividiu apenas com suas duas irmãs), "continuou a percorrer os campos em busca de motivos, a destruir inumeráveis pinturas e esboços em súbitos acessos de raiva, ou a jogá-los por entre os rochedos, fugindo dos visitantes, alternando entre a excitação e o desespero." (THOMAS, Denis.1980)


Estimulado por Pissarro, o "marchand" Vollard resolveu fazer em 1895 uma exposição retrospectiva das obras de Cézanne. Não facilmente encontrado, o pintor enviou-lhe 150 telas que compuseram a exposição inaugurada em novembro daquele ano e provocaram um impacto violento, principalmente sobre os grandes pintores da época. Pissarro chegou a perguntar-se: "Monet, todos nós estaríamos errados?"


Apesar de manter-se isolado, Cézanne ainda expôs no Salão dos Independentes, em 1899 e no Salão de Outono, em 1903. Entre os seus limitados contatos, destacam-se três jovens artistas que o procuraram após 1890: Joachim Gasquet, Charles Camoin e Émile Bernard. E é através da correspondência que mantinham entre eles, que podemos ter acesso aos raros escritos de Cézanne sobre arte:

"O Louvre é o livro em que aprendemos a ler. No entanto, não nos devemos contentar em reter as belas fórmulas de nossos ilustres predecessores. Saiamos delas para estudar a bela natureza, tratemos de libertar delas o nosso espírito, tentemos exprimir-nos segundo o nosso temperamento pessoal. o tempo e a reflexão, além disso, pouco a pouco, modificam a visão e, finalmente, nos vem a compreensão". (Carta enviada em 1905 a Émile Bernard).

As idéias relativas à totalidade das imagens num mesmo quadro de Cézanne, valendo-se da cor e de novas concepções, numa pesquisa frenética, fazem deste pintor o precursor do Cubismo e da "Arte Moderna". Não raro podem-se ouvir comentários do tipo: "A Arte começa num atelier de Cézanne e lá, também, termina".



Referências

- Galeria Delta da Pintura Universal

Editora Delta S.A. - Rio de Janeiro, 1974

volume II

- Gombrich, E. H.

A História da Arte

Editora Guanabara - Rio de Janeiro, 1988

- Hauser, A.

História Social da Literatura e da Arte

Editora Mestre Jou - São Paulo, 1982

- Thomas, Denis

Os Impressionistas

Ao Livro Técnico / S.A. - Rio de janeiro, 1980

- Chipp, H. B.

Teorias da Arte Moderna

Martins Fontes - São Paulo, 1988