• Ao Redor - Cultura e Arte

O show das sete

Atualizado: Abr 20

Quando o relógio indicou as precisas sete horas, o amplo e silencioso cômodo de paredes cor de névoa presenciava o espetáculo diário. Um semblante mortificado atravessou a sala. O homem apático que, contrariando o que afirmavam os registros, sentia o peso de muitos anos a mais sobre as costas, levantou-se lentamente de seu assento no sofá de veludo vermelho - e assim se diz, pois ali, e apenas ali, sentava-se dia após dia - e cursou seu caminho até a mesa de jantar. Sobre ela, do outro lado do ambiente, já o aguardavam os dois pratos de louça branca, os dois copos de vidro à direita dos pratos, os dois garfos, as duas facas, a jarra de água, a travessa de carne e todo o aparato que o momento exigia, todos em seu devido e absoluto lugar. Cada elemento do cômodo parecia habituado (para que não se mencione o dominante tédio) àquela cena.


Enquanto esperava o outro se acomodar à mesa, uma mulher opaca concentrava toda sua energia em fatiar o lombo de porco que havia assado (o que, no fim, resultou em apenas duas fatias seguidas de uma pausa da qual ela não retornou). Seu rosto evocava um cansaço nebuloso, apesar do mínimo esforço que lhe exigia a rotina. Era desatenta e nunca impaciente, nada lhe era urgente ou alarmante. Assim, não lhe importunava observar o outro caminhar a passos tão lentos, poderia fazê-lo, inclusive, por longas horas, ou não. Tudo lhe servia bem, já que ela nunca, de fato, se servia de nada.


Quando o homem finalmente se sentou na maciça cadeira de mogno, o belo lustre de cristal acima da mesa permitiu-lhe enxergar melhor a refeição. Em nenhum momento os dois únicos pares de olhos no recinto ousariam se encontrar, então nada restava-lhes senão observar por alguns segundos os alimentos metodicamente dispostos sobre a toalha branca. Apesar de menos de dois metros separarem os lugares opostos ocupados à mesa, não seria difícil admitir o abismo que havia entre eles - para o alívio e comodidade de ambos. Ele então pegou uma colher e pôs-se a montar seu prato costumeiro. Serviu-se do arroz, do feijão, da salada, das batatas e do lombo. Ela o seguiu fazendo o mesmo - não seria de sua natureza agir de outra forma. O jantar estava finalmente arranjado, e era possível até sentir uma certa satisfação insossa pairar sobre aquela monotonia.


Deram um gole na água, pegaram seus talheres e puseram-se a comer: primeiro os vegetais, um pouco dos acompanhamentos e então um pedaço de carne. Ao entrar em contato com aquele assado, o homem parou. Um raio atingiu seus nervos, sentia uma eletricidade assustadora percorrer toda a extensão de seu corpo e pensou que mal poderia expirar o ar que estava em seus pulmões. Aquela carne. Aquela carne foi capaz de dar fim ao espetáculo mais intocado e fiel que já existira. Ao perceber que ele já não seguia mais o roteiro, ela também parou, mas porque não sabia o que fazer. Seu olhar encheu-se de pavor, pois não era dada a espontaneidades - e sabia que ele também não. Algo ocorrera, algo inconcebível, ela podia assegurar. Ficaram os dois imóveis e mudos, mas não como antes. Agora havia uma corrente luminosa que percorria a sala, uma corrente indomada e imprevisível, perigosa em todos os seus aspectos na perspectiva daquela casa tão inexpressiva, e a corrente fluía deles.


Depois de recuperar parcialmente a consciência, ele foi capaz de dizer a ela, mesmo que ainda fitando o prato: “Tem alecrim nesse lombo”. Os olhos dela se arregalaram ainda mais, e ele finalmente a encarou e repetiu “Tem alecrim nesse lombo”. Ela nada dizia, em parte pela séria questão que se levantava, em parte pelo espanto que aquela voz da qual mal se recordava lhe causou. Em vista do silêncio categórico que se impunha, ele repetiu. E repetiu. E repetiu. Quando se deu conta, estava aos berros, olhando fixamente para sua esposa a dizer “Tem alecrim nesse lombo! Tem alecrim nesse lombo! Você nunca usa alecrim, por que fez isso hoje? Você colocou alecrim no lombo!”. O garfo que ele segurava acompanhava o ritmo caótico com que se movia a mão ao expressar tão grande agonia.


A esposa permaneceu inerte até aquele momento ou, ao menos, era o que aparentava. Em uma das pausas entre os gritos do marido, enquanto ele recuperava o fôlego com dificuldade, já que há anos não sentia emoção tão forte, ela reuniu toda sua força (agora muito maior que aquela que usara para cortar a carne), espalmou a mão direita e golpeou a mesa, fazendo o copo com água ao seu lado cair e molhar a toalha. Não houve, contudo, reação à bagunça que se instalou sobre o encharcado aparelho de jantar, pois a bagunça que permeava as mentes daquele casal por nada poderia ser superada. O piloto automático foi desligado e eles sentiam-se prestes a colidir.


Depois do estrondo que derrubou o copo, seguiu-se o silêncio atônito do marido. A esposa, por sua vez, inspirou profunda e lentamente, pois nenhum montante de ar parecia suficiente para sustentar todas as palavras que ela retinha em seu íntimo. Quando admitiu que nenhum corpo poderia comportar tanto oxigênio, ela escolheu dizer a única frase que foi capaz de formular: “Acho que confundi o alecrim com o tomilho”, ela disse suplicante. À medida que dizia novamente a frase, contudo, seu tom se alterava, tornava-se mais firme e encorpado, e era possível ver a frase se moldar cada vez mais ao sentimento que dominava seu coração antes tão desabitado: a raiva. Seguindo, então, o que fizera o esposo - mas não como quando o seguira ao servir-se do jantar - ela elevou a voz, gesticulando exageradamente.


A essa altura, ninguém se lembrava mais da diferença entre tomilho e alecrim, tudo que enxergavam era raiva. Olhavam um para o outro, e também para dentro de si, e submergiam num rio de rancor e ódio. Quantos anos de sentimentos tenebrosos poderiam formar tão forte correnteza? Gritavam agora um com o outro, apesar de ninguém saber exatamente o que dizia; isso não importava. Nenhuma fala expressaria o que sentiam, então falavam apenas para anunciar a presença de sentimento. A sala observava horrorizada aquela transformação, enquanto dois dos elementos mais antigos da mobília criavam vida.


Em certo ponto do escarcéu, o vigor das emoções tornou-se brando e, ainda assim, mais dilacerante que antes. Uma torrente de lágrimas inundou o prato do marido acabando de vez com qualquer chance de que alguém jantasse naquela noite. Ela também chorava e, subitamente, uma tristeza profunda se apossou de suas almas. Ninguém seria capaz de descrever quanto choro e quanta dor cabem em dois corações antes de assistir àquela cena. Era a entrega, a desistência, o fim de uma longa batalha que tornara-os dormentes à vida. Apesar do medo de passar por uma experiência que, com tanto afinco, evitaram, aquela refeição catártica alimentava seus espíritos e aguçava seus sentidos.


Esgotaram as lágrimas ao ponto de chorarem apenas com gemidos e semblantes. Enquanto ele ainda lutava para recuperar a sobriedade, a esposa tomou uma das atitudes mais audaciosas de sua vida: levantou-se da cadeira, caminhou até o assento mais próximo ao dele, acomodou-se e, sustentada pela onda de coragem que a invadia, segurou a mão do marido. A ligação entre eles foi como um choque. Quanta saudade, alegria e alento recaíram sobre aquelas pobres criaturas. Ele levantou o rosto e olhou dentro dos olhos verdes que o observavam com ternura e assombro. Igualmente espantado, ele ergueu a outra mão e tocou os cabelos castanhos da esposa, enquanto ela enxugava as lágrimas do rosto dele com o passar de delicados dedos sobre a pele morena. De forma miraculosa, seus lábios esboçaram sorrisos. Uma felicidade arrebatadora e inesperada aliviava, naquele momento, os tantos anos de comedimento insensível.


Olharam ao redor. A mesa estava uma bagunça, havia talheres no chão e uma poça de água se espalhou até atingir o tapete estampado que se estendia pela sala. Voltaram-se um para o outro e riram. Estava claro que para arrumar uma confusão de tamanha proporção era impossível não criar outra. A verdade é que aquele cômodo desordenado nada tinha a ver com a situação dos dois, assim como a organização anterior em nada lhes representava. Finalmente estavam livres de uma rotina que os aprisionara por tanto tempo. Eram capazes de viver novamente e não havia mais barreiras entre eles e as emoções. A noite seguiu seu rumo sem jantar. Ninguém arrumou a mesa, ninguém voltou para o mesmo assento do sofá e o amplo cômodo cor de névoa aplaudiu, pela última vez, o pontual espetáculo das sete horas.


Autoria de Maria Clara Weinem


Sobre a autora

Maria Clara tem 20 anos e estuda Medicina, mas afirma que a arte é mais importante na sua vida: "comecei com a música, que me conquistou desde o início, mas ainda assim, quando preciso de refúgio, corro para as palavras. Escrevo por necessidade de deixar sair o que não cabe só em mim para ver se, assim, abro mais espaço para entender".

Visite o perfil da autora em @mariaweinem

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