• Ao Redor - Cultura e Arte

Manhã de Inverno

Cinco e meia da manhã, a tímida claridade do dia se insinuando quarto adentro. Inverno. Um dos mais rigorosos de que se tem notícia nos últimos tempos. Dez graus Celsius, marca o termômetro.


Quem tem um termômetro dentro do quarto? Pois é, dona Fatinha tem. Sempre foi fissurada nessa coisa de adivinhar temperatura, então comprou um thermostater e dependurou lá na janela, pelo lado de dentro. Foi baratinho, é um made in China de um e noventa e nove, mas dá conta do recado direitinho. Tá certo, dez graus é pinto, qualquer gaúcho tira de letra, mas estamos falando do Rio de Janeiro. O que tem de carioca usando cachecol e luvas é uma coisa totalmente inusitada. E como tem. Na zona sul seria até normal, mas no subúrbio?... Mas tem, e não é discriminação, não.


Dona Fatinha já é acostumada a acordar cedo, não consegue mesmo ficar deitada depois que amanhece. Mas com seu Julinho, o marido, é diferente, ele mais se enrodilha e se encolhe debaixo das cobertas, quando a esposa levanta da cama e deixa entrar aquele ventinho de popa, gelado como ele só.


― Nossa, que frio! Deve estar uns dez graus... Julinho vai continuar na cama? ― perguntou só por perguntar, a resposta era a de sempre.


― Vou.


E lá vai ela, a caminho de derrotar um por um os afazeres do dia, enquanto rumina seus pensamentos:


É muito gozado esse mundo. Essa tal de desigualdade social de que tanto falam. Quer ver só? O Arrigo, que mora aqui em frente, por exemplo: só tem o curso primário. Que hoje nem se chama primário, hoje se chama fundamental. Pois é, só tem a metade do fundamental, já que da outra metade, que seria o antigo ginasial, ele passou longe. Mesmo assim conseguiu uma gorda aposentadoria daquele seu emprego na câmara de vereadores e hoje está aí, numa boa. Todo mundo sabe que o emprego era fajuto, a aposentadoria é também fajuta e ninguém diz nada. Tudo arranjado por ex-candidato que ele ajudou em campanha eleitoral. Os caras se elegeram, viraram políticos e ele foi carregado a reboque. Todo ano troca de carro. É, todo ano o seu carro é roubado e o seguro ajuda a comprar outro, novinho, novinho. Coitado do Arrigo, parece que os ladrões de carro gostam mesmo dele... Aprendi que os opostos se atraem, mas o que estou vendo aqui é o contrário.


E o Buda, outro vizinho?... Esse tem um casarão que mais parece um palacete. Estudo, nenhum, tudo conseguido com dinheiro de jogo do bicho. Desse, então, é que ninguém fala mesmo, em boca fechada não entra mosca. Nem bala perdida.


E eu? Gastando meu fundamental completo aqui entre o tanque e a cozinha. Valeu a pena estudar? Ninguém valoriza, ainda mais sendo mulher. Queria ter nascido homem pra ser jogador de futebol. Aí não teria que estudar, era só saber chutar bola e rebolar na hora do gol. Ah, sim, e inventar cortes idiotas de cabelo pra todo mundo imitar.


O outro, lá na cama, não quer nada com nada. Ontem, só porque me ajudou a pintar o muro da varanda, um murinho à toa, disse que estava com dor no peito. Me deixou terminar sozinha o trabalho de pintura, sempre tem uma desculpa pra cair fora do batente. E ainda reclama: “ Sopa, de novo? Detesto sopa. Só tem isso?”


Só tem isso... Devia é dar graças a Deus que só tem isso. É no que dá ter casado com um cara que vive de biscate. E só biscateia quando quer, quando a fome aperta. E se acha o tal: “Comida, pra mim, tem que ter bastante sal. Não suporto essas comidas light, diet, sei lá mais o quê, que vocês comem. Gosto de sentir o gosto da comida, comida sem sal não tem gosto. Eu sou espada!”


Até parece que tem uma saúde de ferro. Essa espada tá enferrujada faz tempo. Vive caindo pelas tabelas, reclamando de dor de cabeça, não admite que tenha pressão alta, comendo sal desse jeito qualquer dia vai explodir que nem uma panela de pressão com a válvula entupida.


― Bom dia, Fatinha, soube o que aconteceu ontem?


Essa é Claudete, vizinha de Fátima.


― O ex-namorado da Paulicéia seguiu ela, agarrou ela pelos cabelos, jogou dentro do carro e se mandou! Foi de dia, aqui na rua, todo mundo viu! Menina, foi um corre-corre dos diabos, o Tácio e a Fabiana saíram de carro perseguindo os dois, a mãe da Paulicéia teve uma ziquizira, chamaram ambulância, ligaram pra polícia denunciando seqüestro e tudo! Precisava ver. Chamaram até o Darnel pra resolver a situação. O Darnel se dá com o ex, né? É amiguinho dele. Até parece que o vaselina do Darnel ia resolver alguma coisa. Só ficava falando “me dá um voto de confiança, me dá um voto de confiança” e só ficou nisso mesmo. No cair da noite, todo mundo desesperado, chega a Paulicéia, cabelos molhados, a cara mais lavada desse mundo, dizendo que tava tudo bem, só tiveram uma conversinha e tal. Pois sim, foram é “conversar” no motel, que ninguém aqui é bobo... E a gente se descabelando à-toa...


Claudete sempre tem notícias em primeira mão. Também, vive lá no portão, de olho nos acontecimentos. Conhece todos aqui no bairro. Vai embora após mais esse furo de reportagem.


Puxa, já vão dar dez horas! Como o tempo voa! E o marido inda na cama, o mandrião.


― Júlio, dez horas!


Como resposta, o silêncio. Não está nem aí.


― Júlio, acorda pra cuspir! ― que sono de pedra o danado tem... Eu vou lá e puxo aquelas cobertas, quero ver só!


― Senhor Júlio, sabe que horas...


Nossa, como está pálido. Júlio! Aquela dor no peito... Será que... Ai, meu Deus...


― Júlio, Julinho, fala meu amor... O que foi? Responde... Ai, meu Deus!... Seu Julinho arregala os olhos de repente.


― Almoço tá pronto?...


Autoria de Paulo Cezar Tórtora


Sobre o Autor

Engenheiro (formado na UCP - Universidade Católica de Petrópolis), professor, autor de 2 (dois) livros de poesia - Sonetos, Haicais e Outros Ais (ed. Costelas Felinas, SP, 2017) e Raio de Sol e Outras Centelhas Poéticas (ed. Litteris, RJ, 2019). Sou, atualmente, presidente da AML - Academia Madureirense de Letras (RJ).