• Luiza Pessôa

O que é dança contemporânea?

É possível definir dança contemporânea? Quais os fatores significativos na identificação ou conceituação da dança contemporânea?

Se pensarmos no balé clássico, por exemplo, temos uma imagem muito clara. Sua estética e seus códigos são bastante sólidos e facilmente identificáveis. Podemos definir suas raízes no renascimento italiano; seus princípios técnicos foram estipulados na academia real francesa, influenciados pela movimentação das danças dos bailes de corte; seus fundamentos estabelecidos pelos princípios da arte clássica.


Sem muita dificuldade poderíamos definir outros gêneros de dança, como o jazz dance, ou manifestações de danças populares ou folclóricas que normalmente tem raízes e códigos bem definidos.


Mas e a dança contemporânea?


É verdade que algumas linguagens ganharam maior visibilidade por meio de companhias que se destacaram no cenário da dança aqui no Brasil e acabaram, de certa maneira, formando uma imagem da dança contemporânea que se popularizou e hoje ocupa o nosso imaginário. A dança contemporânea carioca, a partir de coreógrafos como Lia Rodrigues, João Saldanha, Debora Colker e Paulo Caldas, entre outros, foi bastante significativa na formação da imagem da dança contemporânea que se difundiu no Brasil. Mas será que a dança contemporânea se resume à linguagem dessas companhias? Podemos ainda questionar: será que podemos colocar esses coreógrafos na mesma “caixa”?


Não há uma resposta exata ou única sobre a linguagem da dança contemporânea. O que é comum à maioria dos pensadores, pesquisadores ou historiadores da dança é identificar a eclosão do que veio a se chamar dança contemporânea a partir da segunda metade do século XX. É consenso, quando se fala em origens da dança contemporânea, a citação da influência da dança expressionista, com os estudos de Laban, na Alemanha, do movimento do Judson Dance theater, e das práticas do contact-improvisation, nos Estados Unidos e da nova aança na França. O que já nos sinaliza que essas “origens” são bastante plurais e geraram expressões de dança com estéticas bem diferentes.


A dança contemporânea, em uma definição bastante superficial e simplificada, seriam as manifestações de dança que surgiram depois dos movimentos modernos e que se distanciavam do balé clássico e das técnicas de dança moderna e que pretendiam romper com os princípios anteriores estabelecidos por essas vertentes da dança.


A verdade é que até mesmo a dança moderna é difícil de ser conceituada porque, diferentemente do bale clássico, não existe uma única dança moderna, mas algumas “danças modernas”, já que a ideia de uma expressão individual e livre de princípios pré-estabelecidos já estava presente nas propostas dos pioneiros da dança moderna como Isadora Duncan, por exemplo. É surpreendente, o contraste da dança moderna de Graham, nos Estados Unidos e Wigman, na Alemanha. No entanto, as duas são representantes da dança moderna. Após a década de sessenta, essa liberdade, almejada desde o início do século XX, alarga ainda mais os seus limites, alicerçada em uma mudança de mentalidade que desmonta a soberania da mente como único lugar de elaboração de saberes, dividindo essa tarefa com o corpo. Inicia-se uma era de valorização do corpo como lugar de autoconhecimento, de percepção da realidade e compreensão do mundo. E esse é um bom caminho para compreendermos a dança contemporânea como um todo.


Se a dança contemporânea não se estabelece a partir de uma técnica estruturada específica, mas pode incluir e/ou mesclar diversas técnicas, dependendo das vivências, cultura e formação dos coreógrafos; se a ideia de oposição ao balé clássico não é mais uma novidade no período de eclosão da dança contemporânea e nem suficiente para formular um conceito; e se as influências são diversas e resultaram em linguagens bastante distintas umas das outras; então, o que aproxima essas manifestações artísticas consideradas dança contemporânea? Podemos dizer que há dois aspectos importantes. Uma temporalidade comum, mencionada anteriormente, com movimentos que surgem a partir de meados do século XX e todo um contexto de transformações que o mundo experimenta nesse período, e um deslocamento do foco do resultado final para o processo de criação da obra de arte. Este último, talvez o fator mais significativo de identificação da dança contemporânea.


O processo de pesquisa, na dança contemporânea, é mais importante do que a própria obra final. Tradicionalmente, na história da dança cênica ocidental até então, os coreógrafos tinham uma obra idealizada e o processo de construção de uma peça de dança consistia em treinar os bailarinos e transmitir a eles o que se pretendia executar em cena.


Na dança contemporânea, o foco é deslocado para o processo de pesquisa que se torna central nas criações de dança enquanto, a obra, torna-se praticamente uma consequência desse processo. De tal modo que muitas vezes é o próprio processo de pesquisa, não organizado, que é levado à cena. Algo que divide bastante as opiniões do público e dos críticos.


O aspecto “forma” também vai perdendo sua importância para o “conceito”. O que, aliás, é a essência da arte conceitual. O que nos mostra que a dança contemporânea acompanha o movimento da arte contemporânea em geral, em suas diversas expressões, como também acontece com as artes plásticas, o teatro ou o cinema, com o conceito se tornando mais importante que a forma.


Nessa valorização do processo de pesquisa, os bailarinos passam a dividir o espaço de criação com o coreógrafo ou diretor, que passa mais a conduzir o processo de criação do que transmitir formas prontas a serem executadas. Isso acontece em proporções diferentes e muitos coreógrafos contemporâneos que ainda prezam pela forma são criticados por isso.


Este artigo não pretende julgar, criticar ou apontar acertos ou erros, isso nem faria sentido quando falamos de dança contemporânea ou mesmo de arte de forma geral. A proposta é tentar identificar o cerne da questão, o qual, identificamos que é esse: o deslocamento da razão de ser de uma obra para o seu processo criativo. O que acentua o caráter de singularidade da obra de arte.