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  • Foto do escritorLuiza Pessôa

O que é dança contemporânea?

Atualizado: 21 de jan.

É possível definir dança contemporânea? Quais os fatores significativos na identificação ou conceituação da dança contemporânea?

Ao pensarmos no balé clássico, temos uma imagem muito clara. Sua estética e seus códigos são bastante sólidos e facilmente identificáveis. Podemos definir suas raízes no renascimento italiano. Seus princípios técnicos foram estipulados na academia real francesa, influenciados pela movimentação das danças dos bailes de corte e seus fundamentos estabelecidos pelos princípios da arte clássica.


Sem muita dificuldade, poderíamos definir outros gêneros de dança, como o jazz dance, ou manifestações de danças populares ou folclóricas que normalmente tem raízes e códigos bem definidos.


Mas e a dança contemporânea?


É verdade que algumas linguagens ganharam maior visibilidade por meio de companhias que se destacaram no cenário da dança aqui no Brasil e acabaram, de certa maneira, formando uma imagem da dança contemporânea que se popularizou e hoje ocupa o nosso imaginário. A dança contemporânea carioca, a partir de coreógrafos como Lia Rodrigues, João Saldanha, Debora Colker e Paulo Caldas, entre outros, foi bastante significativa na formação da imagem da dança contemporânea que se difundiu pelo Brasil. Mas será que a dança contemporânea se resume à linguagem dessas companhias? Podemos ainda questionar: será que podemos colocar esses coreógrafos na mesma “caixa”?


Não há uma resposta exata ou única sobre a linguagem da dança contemporânea. O que é comum à maioria dos pensadores, pesquisadores ou historiadores da dança é identificar a eclosão do que veio a se chamar de dança contemporânea a partir da segunda metade do século XX. É consenso, quando se fala em origens da dança contemporânea, a citação da influência da dança expressionista, com os estudos de Laban, na Alemanha, do movimento do Judson Dance theater, e das práticas do contact-improvisation, nos Estados Unidos e da nova dança na França. O que já nos sinaliza que essas “origens” são bastante plurais e geraram expressões de dança com estéticas bem diferentes.


A dança contemporânea, em uma definição bastante superficial e simplificada, é uma manifestação de dança que surgiu após os movimentos modernos. Ela se distancia do balé clássico e das técnicas de dança moderna, procurando romper com os princípios anteriormente estabelecidos por essas vertentes da dança.


A verdade é que mesmo a dança moderna é difícil de ser conceituada, já que a ideia de uma expressão individual e livre de princípios pré-estabelecidos já estava presente nas propostas dos pioneiros da dança moderna como Isadora Duncan, por exemplo. É surpreendente, o contraste da dança moderna de Graham, nos Estados Unidos e Wigman, na Alemanha. Tais manifestações apresentam estéticas bastante diferentes. No entanto, as duas são representantes da dança moderna.


Após a década de sessenta, essa liberdade, almejada desde o início do século XX, alarga ainda mais os seus limites, alicerçada em uma mudança de mentalidade que desmonta a soberania da mente como único lugar de elaboração de saberes, dividindo essa tarefa com o corpo. Inicia-se uma era de valorização do corpo como lugar de autoconhecimento, de percepção da realidade e compreensão do mundo. E esse é um bom caminho para compreendermos a dança contemporânea como um todo.


Se a dança contemporânea não se estabelece a partir de uma técnica estruturada específica, mas pode incluir e/ou mesclar diversas técnicas, dependendo das vivências, cultura e formação dos coreógrafos; se a ideia de oposição ao balé clássico não é mais uma novidade no período de eclosão da dança contemporânea e nem suficiente para formular um conceito; e se as influências são diversas e resultaram em linguagens bastante distintas umas das outras; então, o que aproxima essas manifestações artísticas consideradas dança contemporânea?


Opto por destacar dois aspectos importantes. O primeiro, uma temporalidade comum, mencionada anteriormente, e todo um contexto de transformações que o mundo experimentou a partir de meados do sec. XX. O segundo, o deslocamento do foco do resultado final para o processo de criação da obra de arte. Este último, talvez o fator mais significativo de identificação da dança contemporânea.


O processo de pesquisa, na dança contemporânea é, muitas vezes, mais importante do que a própria obra final. Tradicionalmente, na história da dança cênica ocidental até então, os coreógrafos tinham uma obra idealizada e o processo de construção de uma peça de dança consistia em treinar os bailarinos e transmitir a eles o que se pretendia que executassem em cena.


Na dança contemporânea, o foco é deslocado para o processo de pesquisa que se torna central nas criações de dança enquanto, a obra, torna-se praticamente uma consequência desse processo. De tal modo que muitas vezes é o próprio processo de pesquisa, não organizado, que é levado à cena. Algo que divide bastante as opiniões do público e dos críticos.


O aspecto “forma” também vai perdendo sua importância para o “conceito”. O que, aliás, é a essência da arte conceitual. O que nos mostra que a dança contemporânea acompanha o movimento da arte contemporânea em geral em suas diversas expressões. Também nas artes plásticas, no teatro ou no cinema, vemos o conceito por trás da obra se tornando mais importante.


Nessa valorização do processo de pesquisa, os bailarinos passam a dividir o espaço de criação com o coreógrafo ou diretor, que passa mais a conduzir o processo de criação do que transmitir formas prontas a serem executadas. Isso acontece em proporções diferentes e muitos coreógrafos contemporâneos que ainda prezam pela forma são criticados por isso.


Este artigo não pretende julgar, criticar ou apontar uma maneira certa ou errada de se construir a dança. Isso nem faria sentido quando falamos de dança contemporânea ou mesmo de arte de forma geral. A proposta é tentar identificar o cerne da questão, o qual, acredito ser esse: o deslocamento da razão de ser de uma obra para o seu processo criativo. O que acentua o caráter de singularidade da obra de arte, corroborando com a crescente busca do indivíduo contemporâneo por uma expressão singular.


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