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Cidade-Verdade, de Luiza Pessôa

  • Foto do escritor: Luiza Pessôa
    Luiza Pessôa
  • há 1 dia
  • 4 min de leitura

Cidade-Verdade

(Luiza Pessôa)


Há quem pense que Petrópolis é verde,

mas eu sei que é cinza.


O Rio de Janeiro parece cinza.

É azulado.


Já Salvador parece amarelo-alaranjado.

E é amarelo-alaranjado.


Uma cidade honesta.

Sincera.

Que não se disfarça.


Uma cidade-verdade

que se revela inteira.


Rica e pobre.

Hostil e acolhedora.

Alegre e triste diante dos nossos olhos.


Salvador é resistência cultural.

É o Brasil em carne viva.


Salvador é alaranjada,

não por causa do dendê

ou do pôr do sol mais lindo que já vi.


Salvador é alaranjada

porque escolheu ser alegre,

apesar de.



Análise do poema Cidade-Verdade


As cidades descritas pela autora não são coloridas apenas pela paisagem, mas pela experiência histórica que carregam. A análise a seguir procura acompanhar esse movimento, sem a intenção de encerrá-lo. Como acontece com boa parte da poesia, cada releitura parece revelar uma abordagem diferente.


A primeira coisa a se observar é que o texto inverte uma lógica muito comum do turismo e até da geografia afetiva. Normalmente, atribuem-se cores às cidades a partir da paisagem: Petrópolis seria verde pela mata; Salvador, dourada pelo sol ou pelo casario colonial. Mas o texto apresenta outra lógica. As cores não vêm da paisagem, mas da experiência histórica da cidade. Isso é uma operação filosófica interessante, quase fenomenológica: a cidade não é aquilo que o olho registra, mas aquilo que ela revela ao longo da convivência.


Petrópolis talvez seja o caso mais provocador. Dizer que ela "é cinza" contraria sua imagem oficial. A cidade se vende como verde, serrana, imperial. Mas o cinza pode ser lido como uma crítica ao imaginário que ela construiu sobre si mesma. Não necessariamente como um julgamento moral, cinza não é necessariamente "ruim", mas como uma percepção de certa opacidade, de uma cidade que talvez carregue muito mais melancolia, formalidade ou silenciamento do que exuberância. Pensando historicamente, Petrópolis também é uma cidade construída sobre apagamentos: foi planejada para a corte imperial, edificada com trabalho de imigrantes, inserida num país escravista e, durante muito tempo, cultivou uma narrativa muito elegante sobre si, deixando outras histórias às margens. Uma cidade onde o conservadorismo persiste. O cinza pode dialogar com isso sem precisar nomear nada.


Já sobre o Rio de Janeiro, chama a atenção quando a autora escreve: "parece cinza, é azulado". Esse "parece" é fundamental. É como se a cidade tivesse uma superfície endurecida pela violência, pelo concreto e pelo caos urbano, mas guardasse uma espécie de vocação marítima que resiste. O azul não é apenas o mar; pode ser uma disposição de espírito. Filosoficamente, é quase uma distinção entre aparência e essência. O Rio aparenta uma coisa e é outra.


Salvador é diferente porque, nela, aparência e essência coincidem: "parece amarelo-alaranjado e é amarelo-alaranjado". Essa talvez seja a oposição estrutural do texto. Petrópolis é percebida de maneira equivocada. O Rio engana num primeiro olhar. Salvador não engana. Daí a frase: "Uma cidade honesta, sincera, que não se disfarça."

Percebe-se que o elogio a Salvador presente no texto não se refere apenas à sua cultura ou à sua beleza. O elogio é ético. Honestidade é uma categoria moral. A cidade seria "honesta" porque não tenta esconder suas contradições.


Isso lembra uma ideia do filósofo Walter Benjamin de que as cidades são como textos escritos ao longo do tempo, nos quais diferentes épocas permanecem visíveis simultaneamente. Algumas cidades tentam apagar suas camadas, enquanto outras convivem com elas. O texto parece dizer que Salvador pertence ao segundo grupo.


"Salvador é resistência cultural, é o Brasil em carne viva."


Esse trecho é interessante porque desloca o eixo simbólico do Brasil. Durante muito tempo, a identidade nacional foi narrada a partir do Rio de Janeiro ou de São Paulo. O texto desloca esse centro para Salvador. Historicamente, isso faz bastante sentido. Salvador foi a primeira capital, um dos maiores portos do tráfico atlântico e tornou-se um dos principais lugares de preservação e reinvenção das culturas africanas no Brasil. Dizer que ali está o "Brasil em carne viva" é dizer que a história brasileira aparece ali com menos maquiagem.


No fim, o trecho filosoficamente mais profundo aparece na frase: "Salvador é alaranjada porque escolheu ser alegre, apesar de". Essa frase tem uma consequência muito interessante. O poema não diz que Salvador é alegre porque a natureza lhe deu praias bonitas, nem porque o povo "é naturalmente feliz". Ele fala em escolha. Isso rompe com um clichê muito comum sobre a Bahia: o da alegria espontânea, quase biológica. Em vez disso, a alegria aparece como decisão histórica, cultural e coletiva, sendo, portanto, resistência, e não ingenuidade.


Essa ideia tem ecos em muitos pensadores e artistas brasileiros. Ela conversa com a noção de que a festa, a música, a dança e a religiosidade afro-brasileira não são fuga da realidade, mas formas de enfrentá-la. A alegria deixa de ser ausência de sofrimento e passa a ser resposta ao sofrimento.


Partindo agora para uma observação mais literária, pode-se observar que o poema inteiro é construído sobre um único verbo: ser. É verde, é cinza, é azulado, é amarelo-alaranjado, é honesta, é sincera, é resistência, é o Brasil... Esse verbo atravessa tudo.

É um poema sobre essência, não sobre aparência. Aliás, não exatamente. Porque ele começa justamente com o verbo "parecer". Então existe um percurso que estrutura o texto inteiro por meio da oposição entre os verbos parecer e ser. Em Petrópolis, a percepção coletiva é contestada ("há quem pense... mas não é"); no Rio, a aparência esconde outra essência ("parece isso... é outra coisa..."); e, em Salvador, aparência e essência coincidem ("parece... e é..."). A partir daí, o verbo parecer desaparece: Salvador simplesmente é. Ela já não precisa provar mais nada.


 Fotos de Luiza Pessôa e Angelo tribuzy

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Lançado em 2024, o livro "Arte em debate: reflexões contemporâneas", da autora Luiza Pessôa, artista, graduada em História e pós-graduada em História da Arte, reúne artigos revisados e ampliados do blog Ao Redor Cultura e Arte que abordam temas relacionados à arte, além de textos inéditos da autora.


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