• Luiza Pessôa

Arte e História

Atualizado: Mai 7

À primeira vista, o título deste artigo pode sugerir uma abordagem de assuntos relacionados à história da arte. Mais do que isso, o que pretendemos aqui é ressaltar a contribuição que a arte pode oferecer à compreensão de processos históricos.


Para que esta abordagem seja possível hoje, foram fundamentais as novas perspectivas e metodologias trazidas pela Escola dos Annales, nascida na França no início do século XX.


Esse movimento historiográfico surgiu por historiadores que questionavam a historiografia tradicional, apresentando novos elementos e uma nova maneira de se enxergar a história. Essa nova visão consistia, primordialmente, numa ampliação do universo de análise para a compreensão da história. Assim, a Escola dos Annales propunha a inserção de outros tipos de fontes adotadas para as pesquisas, uma variedade de fontes que possibilitasse a imersão nos mais diversos setores da sociedade. Aproximando assim, a História de outras ciências sociais e favorecendo uma interdisciplinaridade que pudesse enriquecer e contribuir para a análise e compreensão dos processos históricos.


A Obra de arte como documento histórico


Nesse contexto, muitos autores contribuíram para a edificação de um campo de saberes que constitui uma História Social da Arte. Trata-se da possibilidade de análise de obras de arte como documentos, produtos de uma sociedade que dialogam com seu contexto e determinações sociais numa relação, não de dependência absoluta ou de mera causalidade, mas dialética, sempre relacional.


Erwin Panofsky foi um dos autores que discursaram a favor deste propósito. Em meados do século XX escreveu o livro intitulado “Iconografia e Iconologia: uma introdução ao estudo da arte na renascença”, no qual se dedicou, em sua introdução, a defender “a História da Arte como uma disciplina humanística”, não se restringindo a justificativas, mas abordando questões conceituais e metodológicas pertinentes ao assunto.


Algumas décadas depois, outro autor contribuiu para as transformações no universo da relação Arte e História. O trabalho de Michael Baxandall contribuiu para a reflexão acerca da análise de uma obra de arte, reconhecendo cada obra inserida num sistema de referências culturais próprias de seu contexto histórico.


Ambos os autores citados, Panofsky e, tempos depois, Baxandall, trataram de forma meticulosa dos conceitos de “intenção” e “intencionalidade” imanentes à criação artística e que estão intimamente relacionados aos elementos históricos-sociais-culturais que uma obra de arte pode refletir. As novas historiografias, ao reinventarem a maneira de lidar com documentos históricos, ampliaram as esferas de análise de uma fonte histórica, incluindo como fator de relevância, indagações sobre a intencionalidade do autor quando da produção/elaboração da fonte.


Para todo historiador, a intenção que marca a produção de qualquer fonte é importante para uma análise histórica, mas em uma obra de arte, o fator “intenção” ganha dimensões ainda mais significativas e diversas pela própria natureza da fonte.

Assim, três fatores merecem destaque quando se trata da investigação de um registro artístico: “intencionalidade”, “experiência estética” e “subjetividade”. Aspectos correlacionados e inseparáveis. Fatores que quando observados de forma breve ou superficial parecem apontar para a impossibilidade de uma produção de conhecimento histórico a partir da arte. Mas que não são necessariamente um empecilho para tal tarefa, desde que o historiador tenha consciência deles para lidar com esses fatores apropriadamente.


Panofsky construiu a própria definição de “arte” associada à noção de “intenção”, que por sua vez, relaciona-se com a “experiência estética”: “a esfera em que o campo dos objetos práticos termina e o da arte começa, depende da ‘intenção’ de seus criadores” (PANOFSKY, 1991). Panofsky define como objetos práticos aqueles objetos produzidos pelo homem que não exigem a experiência estética e, portanto, são de ordem funcional ou comunicativa. Enquanto que, para ser uma obra de arte, um objeto precisa exigir uma experiência estética.


O problema desta relação entre Arte e História, consiste na subjetividade da arte e na impossibilidade de se conhecer a real intenção de um autor no momento da criação. Panofsky indicou que a solução está em promover-se uma “experiência recriativa” que aproxime o historiador da intenção original das obras. “A experiência recriativa de uma obra de arte depende não apenas da sensibilidade natural e do reparo visual do espectador, mas também de sua bagagem cultural” (PANOFSKY, 1991).


Baxandall vai além, esmiuçando ainda mais a questão e esclarecendo que compreender a “intenção” por trás de uma obra de arte não significa descobrir qual o pensamento ou estado de espírito do artista no momento de criação da obra de arte, mas sim, identificar comportamentos sociais, padrões estéticos e demais circunstâncias que resultaram no objeto final tal como ele é (BAXANDALL, 2016).


Panofsky e Baxandall reconhecem que mesmo que um autor possa falar diretamente sobre suas reflexões, sensações, pensamentos conscientes no momento da criação da obra, isso não corresponderia a “experiência recriativa” sobre a qual discorrem esses autores. Observe-se o consenso de suas ponderações:


"O que um artista diz a respeito de suas obras deve ser interpretado à luz das próprias obras" (PANOFSKY, 1991).


"Mesmo quando o próprio autor descreve seu estado de espírito [...] esses relatos tem pouca validade para uma explicação da intenção do objeto; é preciso compará-los com a relação entre o objeto e as condições em que foi produzido [...]" (BAXANDALL, 2006).


Consciente destas relações, o historiador poderá pensar uma série de questões, tais como: que parâmetros se apresentam em uma obra de arte? Quais foram os critérios de julgamento do público como receptor da obra? Quais as relações de poder vigentes que incidem na produção artística no período de criação e circulação da obra ou movimento artístico em questão? Como são produzidos os sentidos sociais, culturais presentes numa determinada obra? Que referências culturais ajudaram a construir a linguagem de um determinado artista? Que experiências singulares impulsionam uma obra para fora de uma padronização coletiva? E outra infinidade de problemas que podem surgir a partir da observação de uma expressão artística reconhecida em seu espaço-tempo próprios.

BAXANDALL, Michael. Padrões de Intenção: explicação histórica dos quadros. Tradução de Vera Maria Pereira. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.


PANOFSKY, Erwin. A história da arte como uma disciplina humanística. In: Significado nas artes visuais. São Paulo: Perspectiva, 1991.


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