• Luiza Pessôa

A arte como transformação

Atualizado: Abr 30


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A abordagem de Néstor Garcia Canclini sobre a função da arte.


Definir a arte ou sua função não é, certamente, uma tarefa fácil. Muitas definições já foram apresentadas e questionadas por diversos estudiosos do assunto. Por isso, este artigo fundamenta-se em um autor específico, que através de muitos questionamentos nos apresenta uma visão sobre a função da arte que enfatiza seu potencial transformador.


A arte enquanto representação de uma realidade pode encobrir ou expor as contradições sociais. Quando as expõe, colabora para a transformação.

Néstor Garcia Canclini, antropólogo argentino contemporâneo, dedica-se a investigar, principalmente, a pós-modernidade e é uma referência quando o assunto é cultura latino-americana. Em seu texto “A Socialização da Arte”, Canclini debruça-se sobre a forma e a função dos objetos para responder o que define uma obra de arte. No texto, demonstra que a maioria dos teóricos da estética considerou que a experiência artística ocorre quando prevalece a forma sobre a função de um objeto. Mas como identificar o que produz esse predomínio da forma sobre a função? Será que é algo contido no próprio objeto ou definido por uma intenção do observador?


Segundo o autor, os dois elementos, observador e objeto, são determinantes. No entanto, ambos, objeto e sujeito observador, são determinados de acordo com cada cultura, modo de produção, período, convenções variáveis e que modificam o sentido de utilidade e de estética dos objetos. A característica de “artístico” não é, portanto, essencial e não está apenas no objeto ou no observador, mas na relação do homem com o objeto e em determinado contexto histórico-cultural. Assim, o autor justifica que a “estética deve partir da análise crítica das condições sociais em que produz o artístico”. Sugerindo, então, que a tradição de estudos da estética deve ser substituída por uma nova visão orientada pelas ciências sociais e da comunicação.


A partir dessa abordagem, o autor reconhece e procura explicar as dificuldades da existência de uma sociologia da arte. Dificuldades que são consequência, principalmente, da complexidade do fenômeno artístico e das limitações das ciências sociais para tratar o assunto. Dentro dessas limitações encontra-se certa insuficiência metodológica, especialmente por aplicarem-se princípios positivistas e pelas barreiras da linguagem para auxiliar nas definições referentes às questões da arte.


É certo que se desenvolveu ao longo do tempo uma preocupação por parte dos teóricos, historiadores, sociólogos em relacionar a arte com o contexto de sua criação. Alguns desses teóricos foram Hippolyte taine, Erwin Panofsky e Pierre Francastel. Para Canclini, esses pensadores trouxeram importantes contribuições para o desenvolvimento da sociologia da arte, pois ampliaram a visão do entrelaçamento entre a arte e o contexto social em que está inserida. No entanto, o autor critica os pesquisadores citados alegando terem descuidado de importantes aspectos desse entrelaçamento. Assim, afirma que em Taine falta melhor definição sobre que fatores do “meio” são determinantes no fenômeno artístico e acusa Francastel de descuidar das determinações sócio-econômicas. Canclini afirma ainda que a produção de trabalhos que relacionam a arte ao contexto de uma maneira satisfatória é uma produção muito recente e escassa. Dentro dessa tendência, o autor destaca o marxismo como principal fonte teórica que contribui para o embasamento dessas pesquisas.


Segundo a teoria marxista, as alterações nas condições econômicas de produção determinam o desenvolvimento de todos os setores da superestrutura e, portanto, não seria diferente com a arte. A partir da análise marxista, Canclini afirma que “no sistema capitalista, as obras de arte, como todos os bens, são mercadorias”. Ou seja, existe o propósito de obter lucro. Canclini aponta o exemplo prático de como os artistas têm suas produções determinadas pelas exigências do mercado e trata também dos vínculos entre a arte e a realidade e de como a obra de arte pode ir além da representação para ser elemento de transformação. Para isso, o autor diferencia os artistas que produzem servindo à lógica da reprodução das relações sociais a favor das classes dominantes, daqueles artistas que produzem com o sentido de transformação e libertação. A arte enquanto representação de uma realidade pode encobrir ou expor as contradições sociais. Quando as expõe, colabora para a transformação.


Canclini volta-se para a realidade da produção artística latino-americana, sua especialidade, e conclui que o processo decisivo na problemática atual da arte é que o controle da produção, distribuição e consumo sejam assumidos pelos povos. Isso permitiria o aumento de uma produção artística que não apenas represente a realidade, mas o faça de forma crítica e possa ser transformadora da realidade. É interessante, no entanto, observar neste autor, como ele trata o caráter de “divertimento” que a arte deve manter mesmo ao abordar temas graves. Segundo o autor, essa é uma importante função que se deve manter na arte para que o entretenimento não fique restrito aos meios de comunicação de massa. Socializar a arte, segundo Canclini, envolve também o prazer e a redistribuição do acesso a esse prazer e a criação.

Referência

“A Socialização da Arte”, GARCIA Nestor, Ed. Cultrix, SP.


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