• Luiza Pessôa

Noverre e as reformas do balé de ação

“Noverre estava em sintonia com a vanguarda artística e filosófica do século XVIII” (Roger Garaudy)

O iluminismo e a necessidade de transformações na dança


O século XVIII é marcado pela difusão das ideias iluministas na Europa. Decorrentes de transformações do mundo que tiveram raízes na revolução científica, na década de 1620, as ideias iluministas difundiram-se energicamente durante o século XVIII, especialmente entre 1715 (ano da morte de Luís XIV) e 1789 (início da Revolução Francesa).


As ideias iluministas exaltavam o conhecimento adquirido pelo uso da razão. À difusão das ideias iluministas está também atrelada a consolidação do individualismo, intimamente ligado aos ideais libertários. Essa trama de transformações do pensamento social, como não poderia deixar de ser, refletiu-se na dança cênica que se produziu nesse período. Esses reflexos podem ser identificados no interior do balé clássico, especialmente na reforma proposta por Noverre.


Jean-George Noverre, bailarino, coreógrafo e teórico da dança, nascido na França em 1727, “estava em sintonia com a vanguarda artística e filosófica do século XVIII” (Roger Garaudy).


Do "balé de corte" ao "balé de ação"


Em meio às mudanças do século XVIII, a dança buscava uma maneira de ser, por si só, suficiente para a narrativa dramatúrgica dos balés de corte. Com uma estrutura grandiosa, o balé de corte utilizava música, poesia, dramatização e dança para contar uma história. A dança era, portanto, apenas um dos elementos da narrativa. Em consonância com essa autonomia almejada pela dança, Noverre propôs várias mudanças que objetivavam facilitar essa narrativa e proporcionar uma representação mais verossímil, ainda que embelezada, da natureza.


Para atingir essa verossimilhança, Noverre defendeu a necessidade do conhecimento sobre o corpo que dança e da observação minuciosa da natureza. Noverre afirmava que esse conhecimento deveria ser levado aos palcos através da pantomima, do respeito às proporções naturais na montagem do cenário, no cuidado com a escolha dos figurinos e até na escolha dos bailarinos que deveriam, segundo ele, ter o físico adequado às personagens representadas.


Noverre queria uma representação que afetasse, emocionasse o espectador. Por isso, preocupou-se também com a expressividade dos bailarinos, que considerava fundamental para a criação das personagens e para a compreensão e afetação do público. Noverre retirou as máscaras dos bailarinos e abriu mão das vestimentas pesadas e luxuosas, levando para a cena o bailarino por trás das máscaras. Questões bastante representativas da valorização do indivíduo característica do período iluminista, como citado anteriormente. As revoluções que marcaram o século XVIII propiciaram a alteração de uma ordem social que podia valorizar mais as conquistas físicas e expressivas em vez da elegância (Caroline Castro).


As propostas de Noverre foram revolucionárias para a dança, inaugurando o "balé de ação" e dando conta de um período de transformações do pensamento social propiciado pelo iluminismo. Suas ideias reverberaram ainda por muito tempo e foram precursoras das transformações que o balé clássico sofreu durante os séculos seguintes e, até mesmo, segundo alguns estudiosos da dança, prenunciadoras das ideias que inauguraram a dança moderna no século XX.


Sobre a autora

Luiza Pessôa é bailarina, coreógrafa e graduada em História com pesquisas na área de história da dança e dança e educação. É autora do curso:


"MÉTODOS DE BALLET NUMA PERSPECTIVA HISTÓRICA" .


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