• Luiza Pessôa

Nem só de "plié" vive a dança


Dança é, também, movimento. Mas será que o movimento que constrói a dança precisa ser necessariamente proveniente de um repertório técnico? O que diferencia um gesto cotidiano de um gesto de dança?


Faremos essa análise a partir de uma tríade, a saber: corpo, movimento, conteúdo (a ser expresso). Esta tríade é o bloco mínimo que configura a dança, sendo:


- Conteúdo: aquilo que a obra pretende expressar ou comunicar, diz respeito a emoções, sentimentos, ideias, perpassados pela inspiração artística;


-Movimento: a ação pela qual o conteúdo se expressa;


-Corpo (o homem): que é o suporte para o movimento e meio pelo qual o conteúdo se materializa.


Reitera-se que essa é a estrutura mínima para que a dança ocorra, mas esses não são os únicos elementos presentes em uma obra de dança. Destaca-se entre os elementos citados que compõem a dança, a matéria, que é o suporte em que a dança se realiza, trazendo à tona o “corpo” e consequentemente, o “homem”, suporte expressivo dessa arte. Na perspectiva que interessa a este artigo, não cabe pensar o corpo anatomicamente ou de outra forma que não seja a de que:


“A existência do homem é corporal. E o tratamento social e cultural de que o corpo é objeto, as imagens que lhe expõem a espessura escondida, os valores que os distinguem, falam-nos também da pessoa e das variações que sua definição e seus modos de existência conhecem, de uma estrutura social a outra. Porquanto está no cerne da ação individual e coletiva, no cerne do simbolismo social, o corpo é um objeto de análise de grande alcance para uma melhor apreensão do presente. (LE BRETON, 2011, p. 07)


A abordagem do “corpo que dança”, bem como a abordagem do “movimento dançado”, são abordagens próprias. Segundo Maria Alice Motta (2006), o corpo, de acordo com a TFD (Teoria Fundamentos da Dança), “não é somente o agente da técnica e/ou da expressão e/ou da fundamentação da dança, mas sim o fluxo de aspectos plurais totalizados num mosaico movente e (co)movido.”


Por sua vez, o “movimento dançado" não é o mesmo movimento funcional cotidiano, o que não exclui a possibilidade de os movimentos funcionais constituírem material para a dança. Os movimentos que compõem a dança podem partir de movimentos cotidianos, mas são transformados, estilizados, ganhando dimensões estéticas que não são próprias do movimento funcional.


“Para Helenita (TFD), dança é todo movimento transformado em arte, o que significa necessariamente uma habitação diferenciada do movimento cotidiano. Os movimentos naturais do corpo do dançarino precisam ser auscultados e, posteriormente articulados em muitos sentidos.” (MOTTA, 2006, p. 96)


O movimento realiza-se num espaço-tempo determinado e possui forma e qualidade. Rodolf Laban desenvolveu um estudo detalhado identificando quatro categorias de análise das qualidades de um movimento conforme: uso do espaço, tempo, peso e fluxo. Não é relevante aqui fazer um estudo mais técnico do movimento, mas compreender que todo movimento pode ser experimentado esteticamente.


A experiência estética, segundo a maior parte dos estudiosos da arte, é fator essencial para definir algo (objeto ou ação) como artístico. Assim, um gesto cotidiano como acenar, por exemplo, que a princípio faz parte de um vocabulário de movimentos funcionais, pode ser também um passo de dança quando, através do trabalho do bailarino ou coreógrafo é modificado em sua forma, sentido ou expressão para ser experimentado esteticamente pelo público.


Nada disso anula, no entanto, o valor da técnica, desde que ela não seja vista como uma finalidade e sim como uma ferramenta do bailarino. O repertório de movimentos ou conjunto de passos que integra uma determinada técnica de dança tem sua história e funções naquele estilo. Klaus Vianna coloca-se muito bem sobre essa questão em seu livro "A Dança" quando afirma :


"À medida que trabalhamos, é preciso buscar a origem, a essência, a história dos gestos - fugindo da repetição mecânica de formas vazias e pré-fabricadas. Só assim o trabalho resultará em uma criação original, em uma técnica que é meio e não fim [...] A técnica na dança tem apenas uma finalidade: preparar o corpo para a exigência do espírito artístico. (Vianna, 2005)