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Desenvolvimento da indústria cultural: democratização ou banalização da arte?



Arte, cultura e sociedade são indissociáveis. Desde a pré-história, o homem se expressa através da arte. Conforme as sociedades vão se modificando, a relação do homem com a arte também é alterada. A produção artística se transforma, o papel social da arte se transforma, os conceitos sobre a arte se transformam. Abordaremos aqui, as mudanças relacionadas ao surgimento e desenvolvimento da indústria cultural.


A indústria cultural, entendida como aquela que produz para o consumo em massa e o lucro, desenvolveu-se especialmente a partir do século XVIII, marcada inicialmente pelo surgimento da imprensa e o consecutivo desenvolvimento da indústria editorial: a primeira a produzir arte em série, comercializá-la desse modo e obter grandes lucros. Essa indústria é responsável, no século XIX, pelo lançamento de novos escritores que tiveram grande alcance de público, especialmente através dos folhetins (romances divididos e publicados em partes nos jornais).


O que caracteriza o novo modelo de produção é o fato do escritor se tornar um funcionário e a obra um empreendimento comercial que tem entre seus objetivos a aceitação do grande público e o lucro. Posteriormente, surgiram outras indústrias culturais, como a indústria do cinema e da televisão. O desenvolvimento tecnológico tornou possível reproduzir obra de arte em escala industrial.


Os questionamentos que nascem em relação à arte a partir dessas transformações são reflexões sobre a autenticidade da arte, sua função, sua utilização.


Democratização ou banalização da arte?


Questiona-se se a indústria cultural contribui para a democratização ou para a banalização da arte; se a produção em massa e voltada para o consumo descaracteriza a arte como elemento de reflexão e transformação social, se a arte é transformada em instrumento de manipulação das massas e de incentivo ao consumismo.


Duas correntes principais de pensamento apontam para diferentes compreensões. Há aqueles que consideram que a indústria cultural contribui para a banalização da arte, descaracterizando a produção artística e fazendo com que o público se torne um consumidor passivo e não mais um observador reflexivo, contribuindo para a redução do senso crítico. Outra percepção, no entanto, considera que esse tipo de produção pode aproximar as culturas e consequentemente os homens e contribuir para a democratização da arte ampliando o seu acesso.


Umberto Eco, escritor, filósofo, linguista e professor italiano, divide os estudiosos do assunto em dois grupos:

- os apocalípticos - os que repreendem a indústria cultural e os meios de comunicação em massa, apontando-a como instrumento de controle e manipulação das massas;

- os Integrados - aqueles que enaltecem a indústria cultural como ferramenta de manutenção e expansão das sociedades democráticas.


O autor é crítico das duas visões. Para Umberto Eco, é preciso aceitar que a sociedade atual é industrial, que os meios de comunicação em massa fazem parte da nossa realidade e que seus produtos podem servir como instrumento de alienação ou emancipação. O importante é lutar por uma produção e veiculação de real valor artístico e cultural.


Nesse processo, são necessárias constantes indagações sobre: quem define o que é belo e como a indústria cultural padroniza os gostos de acordo com os interesses capitalistas? Como estimular o senso crítico em uma sociedade de percepções imediatistas e superficiais? Como preservar e estimular uma produção que escape aos interesses puramente consumistas? E assim por diante. Sempre tendo em vista que a arte é mediadora da nossa forma de interpretar o mundo.

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