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Desenvolvimento da indústria cultural: democratização ou banalização da arte?

Foto do escritor: Luiza Pessôa
Luiza Pessôa
26 de out. de 2021
5 min de leitura

Atualizado: há 4 dias



Arte, cultura e sociedade são indissociáveis. Desde a Pré-História, o homem se expressa através da arte. Conforme as sociedades vão modificando-se, a relação do homem com a arte também é alterada. A produção artística se transforma, o papel social da arte se transforma, e os conceitos sobre a arte se transformam. Abordar se-á, aqui, as mudanças relacionadas ao surgimento e desenvolvimento da indústria cultural.


A indústria cultural, entendida como aquela que produz para o consumo em massa e o lucro, desenvolveu-se especialmente a partir do século XVIII, marcada anteriormente pelo surgimento da imprensa e o consecutivo desenvolvimento da indústria editorial: a primeira a produzir arte em série, comercializá-la desse modo e obter grandes lucros. Essa indústria é responsável, no século XIX, pelo lançamento de novos escritores que tiveram grande alcance de público, especialmente através dos folhetins (romances divididos e publicados em partes nos jornais).


O que caracteriza o novo modelo de produção é o fato do escritor tornar-se um funcionário e a obra um empreendimento comercial que tem entre seus objetivos a aceitação do grande público e o lucro. Posteriormente, surgiram outras indústrias culturais, como a indústria do cinema e da televisão. O desenvolvimento tecnológico tornou possível reproduzir obra de arte em escala industrial. Os questionamentos que nascem a respeito da arte a partir dessas transformações são reflexões sobre a autenticidade da arte, sua função, sua distribuição, sua utilização.


O desenvolvimento da indústria cultural, no entanto, não parou por aí. Para pensar o cenário atual, é preciso olhar para as transformações que essa indústria viveu, sobretudo, a partir da chegada da internet. A era digital, que começou nos anos 1990 com a popularização da internet e o desenvolvimento de novas mídias, transformou radicalmente a maneira como a arte é distribuída e consumida. A revolução digital e a globalização democratizaram a criação, a distribuição e, especialmente, a produção artística, proporcionando um cenário mais acessível para artistas e espectadores.


A produção musical, por exemplo, não se restringe mais a um pequeno grupo de artistas famosos, e as decisões sobre o mercado não estão mais exclusivamente nas mãos das grandes gravadoras, assim como ocorre na relação entre escritores e grandes editoras a partir das possibilidades de publicação sob demanda, publicação de livros digitais, etc. As novas formas de produção e distribuição se estendem a uma multiplicidade de criadores independentes que encontram plataformas para compartilhar suas obras. Uma pesquisa da ABMI (Associação Brasileira da Música Independente)[1], lançada em quinze de outubro de 2020, revelou que 53% dos artistas que estiveram no Top 200 do Spotify são independentes.


No entanto, cabe questionar o quanto tais mudanças alteraram ou perpetuaram o poder das demandas mercadológicas sobre a produção artística. Com o aumento de oportunidades, o cenário exige um maior esforço para que o artista tenha visibilidade, e o padrão que se desenvolveu desde o século XX, com o crescimento da indústria cultural, é o da valorização da produção mais vendável em função da popularização, lógica de mercado que padroniza os gostos de acordo com os interesses capitalistas. O artista, que precisa destacar-se para viver da sua arte, permanece nessa espécie de “beco sem saída”, precisando escolher entre uma produção autêntica e original e uma produção que atenda às demandas do mercado, que se define por aquilo que já é popular e que o público quer consumir.


O filósofo e teórico da arte Boris Groys tem escrito extensivamente sobre a interseção entre arte e tecnologia na era contemporânea. Ele aborda questões como autoria, originalidade e o papel do público na era digital. Em uma entrevista à revista Electra, ele afirma: A Internet aparenta ser não seletiva, livre do poder dos curadores e verdadeiramente global. Mas esta imagem da Internet é enganosa. Após alguns anos em funcionamento, conseguimos ver de forma clara que o espaço da Internet não é unificado nem universal, mas antes extremamente fragmentado. [...] A Internet reage às questões do utilizador, aos cliques do utilizador. Dito de outro modo, o utilizador encontra na Internet apenas aquilo que ali quer encontrar. A Internet é um suporte extremamente narcisista — é um espelho dos nossos interesses e desejos específicos (GROYS, 2018).[2]


Questiona-se se a indústria cultural contribui para a democratização ou para a banalização da arte, se a produção em massa e volta da para o consumo descaracteriza a arte como elemento de reflexão e transformação social, e se a arte é transformada em instrumento de manipulação das massas e de incentivo ao consumismo.


Duas correntes principais de pensamento apontam para diferentes compreensões. Há aqueles que consideram que a indústria cultural contribui para a banalização da arte, descaracterizando a produção artística e fazendo com que o público se torne um consumidor passivo e não mais um observador reflexivo, contribuindo para a redução do senso crítico. Outra percepção, no entanto, considera que esse tipo de produção pode aproximar as culturas e, consequentemente, os homens e contribuir para a democratização da arte, ampliando o seu acesso.


Umberto Eco abordou essas questões em várias de suas obras, incluindo "Apocalípticos e integrados"[3], um ensaio que trata das diferentes perspectivas em relação à cultura de massa e seus efeitos na sociedade contemporânea. Ele argumenta contra uma visão simplista e defende uma abordagem mais complexa e contextualizada sobre o papel da cultura de massa. Eco divide os estudiosos do assunto em dois grupos:


- Os apocalípticos - os que repreendem a indústria cultural e os meios de comunicação em massa, apontando-a como instrumento de controle e manipulação das massas;


- Os integrados - aqueles que enaltecem a indústria cultural como ferramenta de manutenção e expansão das sociedades democráticas.


O autor é crítico das duas visões. Para Umberto Eco, é preciso aceitar que a sociedade atual é industrial, que os meios de comunicação em massa fazem parte da realidade e que seus produtos podem servir como instrumento de alienação ou emancipação. O importante é lutar por uma produção e veiculação de real valor artístico e cultural.


Caminhando para a conclusão deste artigo, vale mais um trecho da entrevista de Boris Groys: "As obras de arte não são mercadorias. As mercadorias são consumidas, usadas [...] Claro que as obras de arte podem ser vendidas e compradas. O comércio da arte faz, de facto, parte do comércio global. Mas, para lá do seu valor comercial, as obras de arte têm um valor simbólico que tem a ver com a sua capacidade de serem transculturais, universais." (GROYS, 2018).


Em um exercício constante de reflexão, são necessárias algumas indagações como: quem define o que é belo e como a indústria cultural padroniza os gostos de acordo com os interesses capitalistas? Como estimular o senso crítico em uma sociedade de percepções imediatistas e superficiais? Como preservar e estimular uma produção que escape aos interesses puramente consumistas? E assim por diante, sempre tendo em vista que a arte é mediadora da nossa forma de interpretar o mundo.


Conheça nosso livro

Lançado em 2024, o livro "Arte em debate: reflexões contemporâneas", da autora Luiza Pessôa, artista, graduada em história e pós-graduada em História da Arte, reúne artigos revisados e ampliados do blog Ao Redor Cultura e Arte que abordam temas relacionados à arte, além de textos inéditos da autora.


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1 comentário


Márcia Cristina Leite Rosa
Márcia Cristina Leite Rosa
27 de out. de 2021

Quando o objetivo da obra é o lucro, a Arte fica em segundo plano.

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