A volta do disco: por que o vinil cresce em plena era do streaming
- Arte Ao Redor

- há 1 dia
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Celebrado em 20 de abril, o Dia Nacional do Disco de Vinil foi instituído em homenagem ao nascimento de Ataulfo Alves, figura central da música popular brasileira no século XX. A escolha da data carrega um simbolismo oportuno: Ataulfo pertenceu a uma geração para a qual o disco não era apenas meio de circulação artística, mas parte da própria construção da vida musical brasileira. Canções viajavam em 78 rotações, depois em LPs, atravessavam rádios, salas de estar, bares e vitrolas domésticas. Recordar o vinil, portanto, não significa apenas cultuar um objeto antigo; significa reconhecer um tempo em que a escuta possuía outra cadência e em que a música se inscrevia no cotidiano por meio de gestos materiais.
Durante muitos anos, parecia resolvido que o disco de vinil pertenceria aos arquivos da nostalgia. O CD o substituíra comercialmente; depois vieram o MP3, os downloads e, por fim, as plataformas de streaming, que transformaram a música em fluxo contínuo e portátil. Ainda assim, quando se observam os números mais recentes da indústria fonográfica, o suposto desaparecido segue contrariando previsões.
Segundo o relatório global da IFPI, a receita mundial da música gravada alcançou US$ 31,7 bilhões em 2025, mantendo uma sequência longa de crescimento do setor. Dentro desse conjunto, os formatos físicos voltaram a avançar, impulsionados sobretudo pelo vinil, cujas vendas cresceram 13,7% no ano, acumulando quase duas décadas consecutivas de expansão. Não se trata, portanto, de um espasmo passageiro nem de uma moda localizada.
Nos Estados Unidos, maior mercado fonográfico do planeta, a RIAA registrou US$ 1,04 bilhão em receita com discos de vinil em 2025, cifra que não se via havia mais de quarenta anos. Foram comercializadas dezenas de milhões de unidades novas. O mercado de usados, muitas vezes esquecido nas análises, mostra vigor semelhante: estimativas recentes indicam cerca de 42 milhões de discos usados vendidos no mesmo período, volume superior ao de CDs comercializados no país.
Esses dados ajudam a corrigir um equívoco comum. O renascimento do vinil costuma ser atribuído, de forma simplista, a consumidores maduros em busca da trilha sonora da juventude. Há nostalgia, sem dúvida, mas ela explica apenas parte do quadro. Pesquisas recentes apontam forte participação da Geração Z, isto é, jovens nascidos já em ambiente digital. Em levantamento internacional, 76% dos entrevistados dessa faixa declararam comprar discos ao menos mensalmente. Mais curioso ainda: uma parcela considerável desses compradores não possui toca-discos.
À primeira vista, o dado parece absurdo. Na verdade, ele revela mudança importante no significado do objeto. Para muitos consumidores, o vinil deixou de ser somente suporte sonoro. A capa, o encarte, a presença física do álbum sobre uma estante, o valor gráfico da edição colorida ou limitada e a sensação de proximidade com determinado artista pesam tanto quanto — às vezes mais do que — a reprodução do áudio. O disco passa a funcionar como peça cultural e signo de pertencimento.
Essa transformação interessa à sociologia do consumo. Em um ambiente no qual quase toda música do mundo cabe no celular e pode ser descartada com um toque, possuir algo concreto adquire novo valor. O LP exige espaço, cuidado, limpeza, escolha. Não se ouve um disco da mesma forma que se deixa uma playlist correndo ao fundo. Há um pequeno ritual: retirar da capa, apoiar no prato, baixar a agulha, virar o lado. Nada disso é indispensável à audição; justamente por isso se torna significativo.
Também não convém romantizar em excesso. O vinil caro de hoje é, em muitos casos, item premium. O preço médio de lançamentos subiu bastante nos últimos anos, especialmente após pressões inflacionárias e gargalos de produção. Em alguns mercados, comprar um álbum novo tornou-se investimento considerável, o que limita o acesso e reforça certo caráter de distinção social que acompanha colecionismos de diferentes naturezas.
Outro ponto menos sedutor diz respeito ao impacto ambiental. O disco tradicional é fabricado em PVC, derivado de combustíveis fósseis, e sua cadeia produtiva envolve consumo energético e materiais de embalagem. Algumas prensadoras e gravadoras vêm testando compostos menos agressivos e processos mais eficientes, embora ainda em escala modesta. O futuro do formato dependerá também de responder a esse impasse sem transformar o tema em mera peça publicitária.
No entanto, reduzir o revival do vinil a fetiche ou marketing seria leitura pobre. O que se vê é sintoma mais amplo de uma sociedade cansada da invisibilidade digital. Arquivos são práticos, mas não envelhecem conosco; não carregam marcas de uso; não têm cheiro de papel antigo nem dedicatória escrita na contracapa. Um disco herdado, encontrado em sebo ou comprado no primeiro salário conserva uma espessura afetiva difícil de converter em bytes.
Talvez por isso o vinil sobreviva com tanta insistência. Ele oferece algo que a técnica moderna raramente entrega: fricção. Obriga a interromper, escolher, tocar, esperar. Em tempos de abundância imediata, a demora às vezes vale mais que a velocidade.
Celebrar o Dia Nacional do Disco de Vinil não implica saudosismo ingênuo nem desejo de restaurar um mundo que já passou. A data convida, antes, a perceber que os formatos de escuta nunca são neutros: eles influenciam costumes, organizam lembranças e condicionam a forma como nos relacionamos com a música. Se o vinil segue presente, é porque, em meio à aceleração contemporânea, permanece vivo o desejo por uma escuta mais atenta e menos dispersa.
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